Ilustração e afeto, conversa com Mariana Valente

10 de abril de 2017 / 0 Comentários

A partir de maio próximo, as prateleiras das livrarias brasileiras exibirão exemplares de A mulher que matou os peixes em roupagem nova. Lançado originalmente em 1968, pela Sabiá, o segundo título de literatura infantil que Clarice Lispector publicou em vida trará reprodução da dedicatória que a autora fez aos filhos, Pedro e Paulo, e aos netos ainda não nascidos.

Nesta nova edição da Rocco, chamam atenção, sobretudo, as curiosas ilustrações feitas a partir de colagens afetivas, “materiais nostálgicos que são relíquias carregadas de história e afeto”, assinadas justamente por Mariana Valente, artista, designer carioca e neta de Clarice, que conversou com o blog.

 

Página ilustrada da nova edição de A mulher que matou os peixes

 

Você vem há algum tempo trabalhando em reedições da obra de Clarice Lispector pela Rocco, como As palavras (2013), O tempo (2014) e prepara A mulher que matou os peixes. Como se dá essa aproximação entre você e a obra clariciana?

É muito curioso como eu resisti alguns anos antes de mergulhar sozinha no abismo bonito que é ler Clarice. Eu tentei A paixão segundo G.H. quanto tinha 15 anos, mas o alerta no começo do livro me fez repensar e perceber que eu estava longe de ser uma pessoa de alma formada. Entendi que eu devia esperar um pouco mais. Também li no colégio Laços de família para uma prova de português, e fui um pouco detestada pelos amigos da sala que não entendiam direito o que tinham lido para lidar com a prova. Então meu primeiro contato com a obra da minha avó foi um pouco traumática. Mas comecei a assistir algumas ótimas peças em homenagem a Clarice, e senti uma enorme urgência de conhecer essa mulher próxima e ao mesmo tempo distante e muito misteriosa. Foi quando li Uma aprendizagem aos 16 e me rendi. Depois veio Água viva, e a partir daí não teve mais volta. É improvável ler Clarice e ser a mesma pessoa de antes da leitura. O momento que eu escolhi (já adulta) para retomar A paixão segundo G.H. foi muito revelador para mim. Das experiências subjetivas mais doloridas e bonitas que vivi. Sinto que ela me ajudou a crescer através dos seus livros. Esse em especial foi motivo de muita investigação em análise! Tenho mais dificuldade de fazer um projeto que envolva minha vó, porque me emociono muito e fico frágil, e sinto enorme responsabilidade em encontrar uma forma de traduzir graficamente a sua obra.

 

Ainda no âmbito da produção conjunta entre colagem e literatura, no ano passado a renomada marca de porcelana portuguesa Vista Alegre lançou uma sopeira e uma edição especial de A paixão segundo G.H., ambos com ilustrações suas. Recentemente, também houve a exposição Lendas de Clarice, no final de 2016, inspirada no livro Doze lendas brasileiras – como nasceram as estrelas. Há diferença entre trabalhar com a produção de objetos, produção expositiva e projetos gráficos?

Acho que maior diferença é o suporte onde o trabalho acontece, mas o processo para qualquer novo projeto é mais ou menos o mesmo. Se eu já tenho uma ideia do que quero fazer, eu saio em busca do material (manual ou digital), seleciono as imagens, em seguida entra o processo de recorte e busca pelos encaixes. Sempre fotografo essa parte do processo, porque me ajuda a perceber espaços e falhas a corrigir. A última fase é colar e unir as partes. Mas normalmente os encaixes claricianos me tomam mais tempo.

 

E quanto ao seu processo de trabalho, como funciona? Qual relação entre imagem e texto, memória e afeto?

Da mesma forma que a escrita e leitura clariciana se faz de maneira quase experimental, em fluxo de consciência e em carne vivíssima, o trabalho com a colagem também exerce um efeito parecido em quem faz e em quem observa. O processo todo é muito simbólico, e eu procuro ressignificar a imagem na própria imagem, como a Clarice ressignifica a palavra na própria palavra.

 

Isso nos leva à quarta pergunta: Mariana Valente como leitora de Clarice Lispector e Mariana Valente como neta de Clarice Lispector. Há fronteiras entre elas? Quem veio primeiro?

A neta, com certeza. Quando era mais nova e alguém descobria que eu era neta da Clarice, a pessoa se emocionava e eu não entendia. Não a conheci pessoalmente mas parecia que todos que a leram a conheceram profundamente. Então eu desconfiava que ler sua obra seria muito revelador. Como foi, e como é.

 

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