Clarice Lispector da linhagem de Machado de Assis – por Rubem Braga

Postado por Elizama Almeida / 14 de agosto de 2017 / 0 Comentários

Quando se trata do tema crônica brasileira, é quase instantâneo pensar no nome de Rubem Braga como seu principal representante. “O máximo dos cronistas”, segundo Clarice Lispector.

O autor capixaba, que modestamente se considerava uma máquina de escrever “com algum uso, mas ainda em bom estado de conservação”, teve recentemente publicada uma nova coleção com textos seus recolhidos em livro pela primeira vez. Em O poeta e outras crônicas de literatura e vida, organizado pelo editor Gustavo Henrique Tuna, o velho Braga, que escrevia diariamente, registra de forma singular certos perfis de intelectuais já conhecidos àquela época: Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Joel Silveira, Rodrigo de Melo Franco, Aníbal Machado e, claro, Clarice Lispector.

À autora, Rubem Braga dedicou o espaço de 11 de dezembro de 1965, na Manchete – o segundo mais importante periódico ainda em seus dias de glória. Naquele ano, foi publicada a terceira edição de Laços de família – reunião de contos lançada pela Editora Francisco Alves em 1960 pela qual Clarice receberia o Prêmio Jabuti de literatura. O diagnóstico do sucesso da ucrano-pernambucana era tão simples quanto ousado. De acordo com Braga, Clarice viria da mesma linhagem de Machado de Assis.

A seguir, uma das 25 crônicas que compõem o novo volume de crônicas de Rubem Braga.

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Clarice Lispector, uma contista carioca

 

Muito francesa esta curta informação do Petit Larousse sobre Virginia Woolf: “Romancière anglaise, née à Londres (1882-1941); sa finesse rappelle la manière du romancier français Marcel Proust”.[1]

Seria possível dizer de Clarice Lispector que sua finura lembra Virginia Woolf – que parece ser, realmente, a sua mais forte influência. Mas o que me surpreende e me encanta, principalmente, nos contos de Clarice, como os desse admirável volume Laços de família, que aparece em terceira edição, é, nessa escritora tão vivida no estrangeiro, o forte sabor carioca. Por mais introspectiva que seja a escritora, ela não é alerta apenas aos tumultos e confusões da alma, mas também com uma sensibilidade especial, às luzes, aos rumores, às brisas e à temperatura, a detalhes da paisagem e do ambiente.

Seus personagens não são apenas do Rio, são de certas ruas, de certos bairros, e trazem a marca disso: no ajantarado de Copacabana “a nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeites de pailletés e um drapejado disfarçando a barriga sem cinta”; e ela permanece o tempo todo como que bloqueada em seu reduto espiritual de Olaria, fitando com desafio a sua concunhada de Ipanema.

A portuguesita preguiçosa e lúbrica só poderia viver na rua do Riachuelo e jantar com vinho verde na praça Tiradentes. A senhora da “Imitação da rosa”, essa moça “castanha como obscuramente achava que uma esposa devia ser”, é basicamente Moça da Tijuca. E o Rio vive nesse livro, com seu jardim botânico e seu jardim zoológico, seus antigos bondes, seu calor, suas noitinhas, seu jardinzinho de São Cristóvão, suas moscas, seus sábados e famílias.

Isso que estou dizendo é apenas uma nota marginal ao livro de Clarice, cujo interesse maior reside na intensa vibração interna de seus seres, e na maestria de estilo e composição em que ninguém a supera no Brasil. Mas a todos nós, que vivemos no Rio, e ficamos pela primeira vez vagamente patriotas cariocas depois da mudança da capital, é doce sentir a cidade arfar e tremer sobre as cabeças dessas criaturas, como se quisesse prendê-las e condicioná-las.

E neste ano do Quarto Centenário sentimos, com orgulho e prazer, que a ucrano-pernambucana Clarice Lispector é, na verdade, uma grande contista carioca, da boa e nobre linhagem de Machado de Assis.

Manchete, 11 de dezembro de 1965

O poeta e outras crônicas de literatura e vida

Rubem Braga/Global Editora, 102 páginas

Org. Gustavo Henrique Tuna

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[1] Romancista britânica, nascida em Londres (1882-1941). Sua finesse lembra a do romancista francês Marcel Proust.

elizama

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