Antes da Hora, prefácio de Paloma Vidal

Postado por Elizama Almeida / 19 de Maio de 2017 / 0 Comentários

Para celebrar os 40 anos de A hora da estrela, a editora Rocco preparou uma edição da novela em roupagem nova, que será lançada na Livraria da Travessa, dia 22/05, às 19h.

Dentre as novidades nesta publicação, está o prefácio de Paloma Vidal desenvolvido a partir da pesquisa dos manuscritos –  sob a guarda do IMS desde 2004 e disponível para acesso aqui. Reproduzimos alguns fragmentos desse mergulho no acervo a seguir.

 

E agora – uma crônica do encontro com os manuscritos de A hora da estrela (Paloma Vidal)

 

Um par de luvas de plástico, uma caixa que brilha de tão branca, numa pequena sala envidraçada e iluminada artificialmente. Tudo me faz pensar numa operação cirúrgica. Isso foi o que anotei. Em seguida uma pergunta sobre como fazer surgir uma emoção ali. Anotei isso e ergui a cabeça, tentando não ser vista ao olhar para J., sentada na escrivaninha confrontada à minha, atarefada e vigilante. Foi ela quem me ofereceu folhas, brancas também, e um lápis, que antes apontou, num gesto deliberadamente anacrônico. Ela passa horas dentro desta sala, com intervalos para o almoço e para o lanche, vendo como se abrem e se fecham as caixas brancas, que lembram presentes, menos por suas qualidades próprias do que pela expectativa daqueles que as abrem. Ela já viu esse gesto tantas e tantas vezes que poderia fazer uma tipologia: há os que riem, os que choram, há os desdenhosos e os desaforados, os que arregalam os olhos, os que os cerram. Há os que desconfiam, como eu. Tudo está mais ou menos previsto. Me pergunto se são muitos os que aceitam as folhas que ela oferece com gentileza junto com o lápis apontado, sendo permitido o uso de computador. Cadernos e canetas, não, computadores, sim. (…) 

Quando cheguei à pequena sala do Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, e antes de abrir a caixa branca, eu já tinha visto escaneadas as anotações de Clarice Lispector para A hora da estrela. Junto com o pedido de escrever uma crônica do encontro com os manuscritos do livro, para uma edição comemorativa dos 40 anos de sua publicação, que se completam este ano, em 2017, vieram as imagens desses papéis, que no entanto eu fazia questão de ver ao vivo. (…)

Nesta pequena sala, de luvas postas, em companhia de J., ela que estende para mim folhas brancas e um lápis, eu que aceito, embora tenha levado o computador. Aceito por cortesia, porque me custa em geral dizer não a algo que se oferece com gentileza. Mas não é só isso: é um convite para escrever à mão. J. me faz um convite raro. Um convite, por sua vez, que poderia dar um sentido a este encontro. Quero o gesto dela em mim. Isso foi o que anotei em seguida, antes de me decidir por fim a abrir a caixa branca. (…)

Dentro encontramos 34 pastas, de cor creme, de tamanhos diver­sos, numeradas do lado direito, a lápis: 1/34, 2/34, 3/34, e assim por dian­te. Logo descobriremos que o tamanho das pastas está de acordo com o tamanho das folhas que elas abrigam – menores quando se trata de notas soltas, maiores quando se trata de blocos de folhas de tamanho ofício – e nos perguntaremos se houve alguém que as confeccionou artesanalmen­te, à medida. Descobriremos ainda que os títulos escritos no centro da capa das pastas, também a lápis, correspondem às primeiras palavras da primeira folha dos manuscritos contidos nelas. Tudo isso supõe o traba­lho manual de alguém. “O arquivo supõe o arquivista; uma mão que co­leciona e classifica”, escreve Arlette Farge em O sabor do arquivo. Penso nessas mãos enquanto passam pelas minhas as pastas, que por enquanto não abro. Penso que este arquivo supõe muitas mãos, antes das minhas. E que muitas outras virão, em busca dessa sobrevivência, desse vestígio de real, tão vivo quanto inacessível. (…)

Anoto à mão nas folhas brancas que J. me deu, e já não estou lá, enquanto copio o que anotei nesta tela de computador. Me antecipo para desobedecer o arquivo, querendo ser fiel a ele.  (…)

“O sabor do arquivo”, escreve Farge, “passa por esse gesto artesão, lento e pouco rentável, em que se copiam textos, pedaço por pedaço, sem transformar sua forma, sua ortografia, ou mesmo sua pontuação. Sem pensar muito nisso. E pensando o tempo todo. Como se a mão, ao fazê-lo, permitisse ao espírito ser simultaneamente cúmplice e estranho ao tempo e a essas mulheres e homens que vão se revelando.”

Vou adiante. Sinto que não posso me fixar demais, à espera de que cada uma dessas anotações me faça uma revelação. Começo a passar mais rápido as notas e pastas, fazendo pequenas pilhas que alarmam J.: “você vai saber colocar na ordem de novo?”, ela me pergunta, tirando os fones de ouvido e rompendo o silêncio que parecia ter sido pactuado entre nós depois de distribuídos nossos papéis. Eu respondo o que ela já sabe: que as pastas estão numeradas e que, sim, sim, está tudo sob controle. Ela deve ter notado minha inquietação. Minha sensação de falta de preparo. Não é a primeira a quem isso acontece. Há os que sabem o que procuram e há os que apenas procuram, sem saber por onde começar. “Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer?”  (…)

Dou um salto. A cumplicidade que eu procuro poderá vir de uma nota na pasta 8/34. Com letra muito trêmula, em quatro linhas, sem pontuação, Clarice escreve no verso de um talão de “Requisição de cheques”: “Juro que este/ livro é feito/ sem palavras/ É uma fotografia muda.” Entre as anotações que recebi escaneadas, não foi incluída a imagem do verso do talão, e se não fosse o encontro posterior, possivelmente eu não teria como saber a origem do papel em que essas linhas foram escritas. Na imagem, via-se uma textura, finas listras bege recobrindo um papel de cor creme, com uma borda ligeiramente mais escura. Penso sobre a frequência destas notas na escrita de Clarice, quando as frases vêm inesperadamente, quando vem a necessidade de anotar, a qualquer momento, em qualquer lugar. Nestas pastas, há envelopes, papéis rasgados, folhas soltas, este pedaço de talão. Vejo a fascinação que exerce o registro de uma escrita que vem de repente e não pode ser contida. O registro de um instante. Do instante em que algo se cria. Além, também, do testemunho de um método, que só mais tarde, tendo aberto mais algumas pastas, será possível enxergar melhor.

 

Por enquanto, me detenho nesta nota. O encontro entre estas frases e este papel. Qualquer tipo de papel poderia ter servido para estas anotações, eu sei, entre eles este, que, não obstante, ao contrário de outros, indica uma data, 15/9/76, um número de conta, uma agência, “Lido”, do Banco Nacional. Neste caso específico a escrita passa a existir no tempo e no espaço, numa relação muito mais concreta com o real do qual fez parte e do qual se tornou vestígio. Ela dá a ver um corpo, de quem percorre e habita um determinado lugar na cidade, numa época, com suas marcas singulares. (…)

Nas últimas páginas do bloco manuscrito, chegamos à morte de Maca. O autor faz rodeios e aparecem os parênteses: “(Eu ainda poderia voltar atrás e recomeçar do ponto em que Macabéa está em pé na calçada – e talvez dizer que um homem alourado olhou-a com olhos de não-importa-de-que-cor. Mas – mas agora fui longe demais e não posso retroceder. Mas pelo menos não falei em morte e sim apenas em grave atropelamento.)” Como narrar a morte é uma das perguntas que os manuscritos nos fazem enxergar com estupor. Chega aqui o “gran finale” anunciado pelo autor, minuciosamente desmentido pelas intervenções que, ao montar o livro, Clarice fará no texto contínuo, muitas delas anotadas nos fragmentos que estão nestas pastas. Através delas, o livro desmentirá a verdade sobre a vida estar numa trajetória que vai de um começo a um fim. A “linha fatal” será recortada. Entre parênteses, no livro, retomam-se estas frases da abertura: “A verdade é sempre um contato interior inexplicável. A verdade é irreconhecível.” (…)

elizama

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