ABBR

(“Lúcio Cardoso”, A descoberta do mundo)

“Estou me lembrando de coisas. Misturo tudo. Ora ouço ele me garantir que eu não tivesse medo do futuro porque eu era um ser com a chama da vida. Ele me ensinou o que é ter chama da vida. Ora vejo-nos alegres na rua comendo pipocas. Ora vejo-o encontrando-se comigo na ABBR, onde eu recuperava os movimentos de minha mão queimada e onde Lúcio, Pedro e Míriam Bloch chamavam-no à vida. Na ABBR caímos um nos braços do outro.”

Ao Bandolim de Ouro

(“Onde estiveste de noite”)

Jubileu de Almeida ouvia o rádio de pilha, sempre. “O mingau mais gostoso é feito com Cremogema”. E depois anunciava, de Strauss, uma valsa que por incrível que parecesse chamava-se “O pensador livre”. É verdade, existe mesmo, eu ouvi. Jubileu era dono do “Ao Bandolim de Ouro”, loja de instrumentos musicais quase falida, e era tarado por valsas de Strauss. Era viúvo, ele, quer dizer, Jubileu. Seu rival era “O Clarim”, concorrente na rua Gomes Freire ou Frei Caneca. Jubileu era também afiador de pianos.”

Av. Atlântica

Av. Atlântica

(“A bela e a fera”)

“Estava exposta àquele homem. Estava completamente exposta. Se tivesse marcado com “seu” José na saída da Avenida Atlântica, o hotel que ficava o cabeleireiro não permitiria que “essa gente” se aproximasse. Mas na Avenida Copacabana tudo era possível: pessoas de toda a espécie. Pelo menos de espécie diferente da dela.”

Catete

Catete

(“O pianista”, A descoberta do mundo)

“Ele era baixo e magro, andava com um passo leve como se o corpo não o perturbasse. A moça da portaria da pensão do Catete, em transporte de enlevo, disse dele: ‘O maravilhoso poder de exprimir seus sentimentos pela música!’”

Cemitério S. João Batista

(“A mensagem”, Legião estrangeira)

“Era uma das ruas que desembocam diante do Cemitério S. João Batista, com poeira seca, pedras soltas e pretos parados à porta dos botequins. Os dois andavam na calçada esburacada que mal os continha de tão estreita. Ela fez um movimento – ele pensou que ela ia atravessar a rua e deu um passo para segui-la – ela se voltou sem saber de que lado ele estava – ele recuou procurando-a. Naquele mínimo instante em que se buscaram inquietos, viraram-se ao mesmo tempo de costas para os ônibus – e ficaram de pé diante da casa, tendo ainda a procura no rosto.

Confeitaria Colombo

(“Um dia a menos”, A bela e a fera)

“E a cantante voz a convidaria pra tomarem chá de tarde na Confeitaria Colombo. Lembrou-se a tempo que hoje em dia um homem não convidava para tomar chá com torradas e sim para um drinque. O que já complicaria as coisas: para um drinque se deveria ir na certa vestida de modo mais audacioso, mais misterioso, mais pessoal, mais… Ela não era muito pessoal. E que incomodava um pouco, não muito. E, além do mais, o telefone não tocou.”

Copacabana

Copacabana

(“A língua do ‘P’”, A via crúcis do corpo)

“Chegou ao Rio exausta. Foi para um hotel barato. Viu logo que havia perdido o avião. No aeroporto comprou a passagem. E andava pelas ruas de Copacabana, desgraçada ela, desgraçada Copacabana. Pois foi na esquina da rua Figueiredo Magalhães que viu a banca de jornal. E pendurado ali o jornal O Dia. Não saberia dizer por que comprou.”

Copacabana Palace

Copacabana Palace

(“Ele me bebeu”. A via crúcis do corpo)

“Um dia, às seis horas da tarde, na hora do pior trânsito, Aurélia e Serjoca estavam em pé junto do Copacabana Palace e esperavam inutilmente um táxi. Serjoca, de cansaço, encostara-se numa árvore. Aurélia impaciente. Sugeriu que dessem ao porteiro dez cruzeiros para que ele lhes arranjasse uma condução. Serjoca negou: era duro para soltar dinheiro.”

Floresta da Tijuca

Floresta da Tijuca

(Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres)

“Agora que você está de novo com os olhos normais(!), podemos ir ver os pescadores, se bem que eu tivesse planejado nesse calor jantar com você na Floresta da Tijuca. Mas as duas coisas seriam demais para a tua capacidade. Lóri, você está se acordando pela curiosidade, aquela que empurra pelos caminhos da vida real.”

Gávea

Gávea

(“Das vantagens de ser bobo”, A descoberta do mundo)

“Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.”

Glória

Glória

(Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres)

“— Não é estranho eu nunca ter perguntado a você onde você mora?
— Está perguntando então agora. Moro na Rua Conde Lage, na Glória, numa casinha pequena e muito antiga, herdada do tempo do tataravô. Chama-se Vila Mariana. Tem um portão de grades de ferro enferrujado que range quando se abre, e depois vem a escadaria, porque na zona da Glória as ruas tendem a subir até que vão parar em Santa Teresa. Sabe onde é?
— Não.
— É perto do relógio da Glória. Quando estou em casa, ouço de quinze em quinze minutos uma espécie de badalar translúcido do relógio que canta devagar marcando o tempo. É muito bom.”

Igreja de Santa Luzia

Igreja de Santa Luzia

(Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres)

“Já estava com saudade do que fora: nem mesmo à Igreja de Santa Luzia, que era o refúgio no calor entorpecente da cidade, ela iria mais. Lembrava-se da última vez que entrara Iá e sentara-se na sombra límpida entre santos. Pensara então: “Cristo foi Cristo para os outros, mas quem? Quem fora um Cristo para o Cristo?” Ele tivera que ir diretamente ao Deus. E ela, sentada então no banco da igreja, quisera também poder ir direto à Onipotência, sem ser através da condição humana de Cristo que era também a sua e a dos outros. E, oh Deus, não querer ir a Ele através da condição misericordiosa de Cristo talvez não passasse de novo do medo de amar. Levantou-se e tornou a bordar.”

Instituto Pinel

(“Das doçuras de Deus”, A descoberta do mundo)

“Esperamos a outra ambulância. Enquanto esperávamos, estávamos pasmas, mudas, pensativas. Veio a ambulância. O médico não custou a dar o diagnóstico. Só que internada ela não podia ficar, apenas pronto-socorro. Mas ela não teria onde ficar. Então telefonei para um médico amigo meu que falou com o colega do Pinel, e ficou estabelecido que ela ficaria internada até meu amigo examiná-la. “A senhora é escritora?” – perguntou-me de súbito aquele que vim a saber ser o acadêmico Artur. Gaguejei: “Eu…” E ele: “É porque seu rosto me é familiar e seu amigo disse pelo telefone seu primeiro nome.” E naquela situação em que eu mal me lembrava de meu nome, ele acrescentou simpático, efusivo, mais emocionado comigo do que com Aninha: “Pois tenho muito prazer em conhecê-la pessoalmente.” E eu, boba e mecanicamente: “Também tenho.””

Jardim Botânico

Jardim Botânico

(Água viva)

“Olho as amendoeiras da rua onde moro. Antes de dormir tomo conta do mundo e vejo se o céu da noite está estrelado e azul-marinho porque em certas noites em vez de negro o céu parece azul-marinho intenso, cor que já pintei em vitral. Gosto de intensidades. Tomo conta do menino que tem nove anos de idade e que está vestido de trapos e magérrimo. Terá tuberculose, se é que já não a tem. No Jardim Botânico, então, fico exaurida. Tenho que tomar conta com o olhar de milhares de plantas e árvores e sobretudo da vitória-régia. Ela está lá. E eu a olho.”

Jardim Zoológico

Jardim Zoológico

(A hora da estrela)

E uma vez os dois foram ao Jardim Zoológico, ela pagando a própria entrada. Teve muito espanto ao ver os bichos. Tinha medo e não os entendia: por que viviam? Mas quando viu a massa compacta, grossa, preta e roliça do rinoceronte que se movia em câmara lenta, teve tanto medo que se mijou toda. O rinoceronte lhe pareceu um erro de Deus, que me perdoe por favor, sim? Mas não pensara em Deus nenhum, era apenas um modo de.

Largo do Boticário

Largo do Boticário

(Bichos(I)”, A descoberta do mundo)

“Enfim, pássaros eu os quero nas árvores ou voando mas longe de minhas mãos. Talvez algum dia, em contato mais continuado no Largo do Boticário com os pássaros de Augusto Rodrigues, eu venha a ficar íntima deles, e a gozar-lhes a levíssima presença. (Gozar-lhes a levíssima presença” me dá a sensação de ter escrito frase completa por dizer exatamente o que é, é engraçada a sensação, não sei se estou ou não com razão mas isso já é outro problema).”

Mangue

Mangue

(A hora da estrela)

“Ai que saudades da zona! Eu peguei o melhor tempo do Mangue que era frequentado por verdadeiros cavalheiros. Além do preço fixo, eu muitas vezes ganhava gorjeta. Ouvi dizer que o Mangue está acabando, que a zona agora só tem uma meia dúzia de casas. Em meu tempo havia umas duzentas. Eu ficava em pé encostada na porta vestindo só calcinha e sutiã de renda transparente. Depois, quando eu já estava ficando muito gorda e perdendo os dentes, é que me tornei caftina. Você sabe o que quer dizer caftina? Eu uso essa palavra porque nunca tive medo de palavras.”

Morro da Viúva

Morro da Viúva

(“A fuga”, A bela e a fera)

“Atravessou o passeio e encostou-se à murada, para olhar o mar. A chuva continuava. Ela tomara o ônibus na Tijuca e saltara na Glória. Já andara para além do Morro da Viúva. O mar revolvia-se forte e, quanto as ondas quebravam junto às pedras, a espuma salgada salpicava-a toda. Ficou um momento pensando se aquele trecho seria fundo, porque tornava-se impossível adivinhar: as águas escuras, sombrias, tanto poderiam estar a centímetros da areia quanto esconder o infinito. Resolveu tentar de novo aquela brincadeira, agora que estava livre. Bastava olhar demoradamente para dentro d’água e pensar que aquele mundo não tinha fim. Era como se estivesse se afogando e nunca encontrasse o fundo do mar com os pés. Uma angústia pesada. Mas por que a procurava então?”

Museu de Arte Moderna

Museu de Arte Moderna

(“Evolução”, A descoberta do mundo)

“Eu continuava a não querê-lo para mim, mas ele de algum modo me dera muito com o seu sorriso de camaradagem entre pessoas que se entendem. A essa altura, perto do viaduto do Museu de Arte Moderna, eu já não me sentia feliz, e o outono me pareceu uma ameaça dirigida contra mim. Tive então vontade de chorar de manso.”

Olaria

Olaria

(A hora da estrela)

Diante da súbita ajuda, Macabéa, que nunca se lembrava de pedir, pediu licença ao chefe inventando dor de dente e aceitou o dinheiro emprestado que nem sabia quando ia devolver. Essa audácia lhe deu um inesperado ânimo para audácia maior (explosão): como o dinheiro era emprestado, ela raciocinou tortamente que não era dela e então podia gastá-lo. Assim pela primeira vez na vida tomou um táxi e foi para Olaria. Desconfio que ousou tanto por desespero, embora não soubesse que estava desesperada, é que estava gasta até a última lona, a boca a se colar no chão.

Pão de Açúcar

Pão de Açúcar

(“A escritora”, Para não esquecer)

“Um dia, escondida de si mesma, anotou no caderno de despesas algumas frases sobre o Pão de Açúcar. Só algumas palavras, ela era resumida. Muito tempo depois, numa tarde em que estava só, lembrou-se que escrevera alguma coisa sobre alguma coisa – o Corcovado? o mar? Foi procurar o caderno de despesas. Por toda a casa. Móvel por móvel. Abria caixas de sapato na esperança de ter sido tão misteriosa a ponto de guardar o escrito numa caixa de sapatos.”

Posto 6

Posto 6

(Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres)

“Chegaram ao Posto 6 e ainda estava entre claro e escuro. Para a descoberta do que Ulisses queria e que talvez se chamasse de descoberta de viver, Lóri preferia a luz fresca e tímida que precedia o dia ou a quase penumbra luminosa que precede a noite.”

Praça José de Alencar

Praça José de Alencar

(“Escândalo inútil”, A descoberta do mundo)

“No começo de nossa conversa houve um mínimo de desconfiança da parte dela: não sabia bem o que eu queria, e só Deus sabe o que pensou que eu queria. Mas em breve já me dizia: “pois é, meu bem.” Disse-lhe que tinha muita vontade de conhecê-la pessoalmente, e se podíamos tomar chá juntas, onde ela marcasse. Sugeriu que eu fosse vê-la na sua casa. Preferi, “meu bem”, que não. Também não sei por que marcou encontro comigo defronte da Farmácia Jaci, na Praça José de Alencar. É, aliás, um ponto péssimo: passam homens em penca e não sabem o que uma mulher parada está fazendo ali.”

Praça Mauá

Praça Mauá

(A hora da estrela)

A nordestina se perdia na multidão. Na praça Mauá onde tomava o ônibus fazia frio e nenhum agasalho havia contra o vento. Ah mas existiam os navios cargueiros que lhe davam saudades quem sabe de quê. Isso só às vezes. Na verdade saía do escritório sombrio, defrontava o ar lá de fora, crepuscular, e constatava então que todos os dias à mesma hora fazia exatamente a mesma hora. Irremediavelmente era o grande relógio que funcionava no tempo. Sim, desesperadamente para mim, as mesmas horas. Bem, e daí? Daí, nada. Quanto a mim, autor de uma vida, me dou mal com a repetição: a rotina me afasta de minhas possíveis novidades.

Praça Tiradentes

Praça Tiradentes

(“Uma coisa”, A descoberta do mundo)

“Eu vi uma coisa. Coisa mesmo. Eram dez horas da noite na Praça Tiradentes e o táxi corria. Então eu vi uma rua que nunca mais vou esquecer. Não vou descrevê-la: ela é minha. Só posso dizer que estava vazia e eram dez horas da noite. Nada mais. Fui porém germinada.”

Rocha Maia

(“Das doçuras de Deus”, A descoberta do mundo)

“Quando dei fé, Jandira, a cozinheira vidente, tinha chamado a ambulância do Rocha Maia “porque ela está doida”. Fui ver. Estava calada, doida. E doçura maior nunca vi.”

Rua Acre

Rua Acre

(A hora da estrela)

O quarto ficava num velho sobrado colonial da áspera rua do Acre entre as prostitutas que serviam a marinheiros, depósitos de carvão e de cimento em pó, não longe do cais do porto. O cais imundo dava-lhe saudade do futuro. (O que é que há? Pois estou como que ouvindo acordes de piano alegre – será isto o símbolo de que a vida da moça iria ter um futuro esplendoroso? Estou contente com essa possibilidade e farei tudo para que esta se torne real). Rua do Acre. Mas que lugar. Os gordos ratos da rua do Acre. Lá é que não piso pois tenho horror sem nenhuma vergonha do pardo pedaço da vida imunda.

Rua da Alfândega

Rua da Alfândega

(“O chá”, Para não esquecer)

“As imaginações que assustam. Pensei numa festa – sem bebida, sem comida, festa só de olhar. Até as cadeiras alugadas e trazidas para um terceiro andar vazio da Rua da Alfândega, este seria um bom lugar. Para essa festa eu convidaria todos os amigos e amigas que tive e não tenho mais. Só eles, sem nem sequer os entre-amigos mútuos. Pessoas que vivi, pessoas que me viveram. Mas como é que eu subiria sozinha pelas escadas escuras até uma sala alugada? E como é que se volta da Rua da Alfândega ao anoitecer? As calçadas estariam secas e duras, eu sei.”

Rua do Lavradio

Rua do Lavradio

(A hora da estrela)

Rua do Acre para morar, rua do Lavradio para trabalhar, cais do porto para ir espiar no domingo, um ou outro prolongado apito de navio cargueiro que não se sabe por que dava aperto no coração, um ou outro delicioso embora um pouco doloroso cantar de galo. Era do nunca que vinha o galo. Vinha do infinito até a sua cama, dando-lhe gratidão. Sono superficial porque estava há quase um ano resfriada. Tinha acesso de tosse seca de madrugada: abafava-a com o travesseiro ralo. Mas as companheiras do quarto – Maria da Penha, Maria Aparecida, Maria José e Maria apenas – não se incomodavam. Estavam cansadas demais pelo trabalho que nem por ser anônimo era menos árduo. Uma vendia pó-de-arroz Coty, mas que idéia. Elas viravam para o outro lado e readormeciam. A tosse da outra até que as embalava em sono mais profundo. O céu é para baixo ou para cima? Pensava a nordestina. Deitada, não sabia. Às vezes antes de dormir sentia fome e ficava meio alucinada pensando em coxa de vaca. O remédio então era mastigar papel bem mastigadinho e engolir.”

Rua Marquês de Abrantes

Rua Marquês de Abrantes

(“A geleia viva”, Para não esquecer)

“Este sonho foi de uma assombração triste. Havia uma geléia que estava viva. Quais eram os sentimentos da geléia? o silêncio. Viva e silenciosa, a geléia arrastava-se com dificuldade pela mesa, descendo, subindo, vagarosa, sem se derramar. Quem pegava nela? Ninguém tinha coragem. Quando olhei-a, nela vi espelhado meu próprio rosto mexendo-se lento na sua vida. Minha deformação essencial. Deformada sem me derramar. Também eu apenas viva. Lançada no horror, quis fugir da geléia, fui ao terraço, pronta a me lançar daquele meu último andar da Rua Marquês de Abrantes.”

Rua São Clemente

(“Instantâneo de uma senhora”, Para não esquecer)

“Morava numa pensão da Rua São Clemente. Era volumosa, e cheirava a quando a galinha vem meio crua para a mesa. Tinha cinco dentes e a boca seca. Sua reputação não fora inventada: ainda falava francês com quem tivesse oportunidade, mesmo que a pessoa também falasse português e preferisse não corar com a própria pronúncia.”

Urca

Urca

(“O grupo”, A descoberta do mundo)

“Saí da casa de minha amiga para um sol de três horas da tarde, e num bairro que raramente frequento, Urca. O que mais cresceu a minha perdição. Estranhei tudo. E, por me estranhar, vi-me por um instante como sou. Gostei ou não? Simplesmente aceitei. Tomei um táxi que me deixaria em casa, e refleti sem amargura: muita coisa inútil na vida da gente serve como esse táxi: para nos transportar de um ponto útil a outro. E eu nem quis conversar com o chofer.”