Inspirações ou notas?

Em 2004, chegaram ao Instituto Moreira Salles (IMS) os manuscritos do romance A hora da estrela, de Clarice Lispector, documentos importantes não apenas pela raridade, mas também por registrarem a maneira como Clarice trabalhava seus textos. Desde as primeiras obras, a escritora adotara o método da anotação imediata. Assim, segundo Nádia Battella Gotlib, sua biógrafa, “passa a carregar um caderninho, onde vai fazendo as suas anotações. São as notas, soltas, que, em grande quantidade, e referentes ao mesmo assunto, constituirão já o seu romance (…).”

Com o tempo, as anotações seriam feitas em qualquer tipo de papel, facilmente à mão, e até por outra pessoa, a quem Clarice solicitava ajuda, quando impossibilitada de escrever. Olga Borelli conta que, às vezes, durante uma sessão de cinema, anotava para a escritora uma ideia ou frase. Diz ainda que Clarice, em meio a afazeres domésticos, subitamente pedia à empregada que lhe fizesse anotações. Por isso, vemos notas de A hora da estrela. em fragmentos de papel, folhas de cheque e envelopes. Além dessa diversidade de suportes, observamos ainda, na maioria dos documentos aqui reproduzidos, a caligrafia de Olga, que ajudou Clarice a organizar e datilografar os manuscritos de A hora da estrela..

Em entrevistas, Clarice costumava explicar como se dava seu processo de escrita, basicamente em duas etapas:

Quando eu estou escrevendo alguma coisa, eu anoto a qualquer hora do dia ou da noite, coisas que me vêm. O que se chama inspiração, né? Agora, quando eu estou no ato de concatenar as inspirações, aí eu sou obrigada a trabalhar diariamente.

Na fase inicial da escrita, portanto, Clarice anotava “inspirações”, isto é, ideias e frases que lhe vinham prontas. Quando chegava a um volume de material satisfatório, a escritora partia para a segunda etapa de criação – concatenava as “inspirações”. Se a primeira fase poderia demorar meses ou anos, o momento seguinte era de trabalho ininterrupto. Assim, os manuscritos de A hora da estrela. depositados no IMS refletem as etapas da criação clariciana, na medida em que esses documentos apresentam tanto as “inspirações” de Clarice, quanto textos mais desenvolvidos, produtos daquela concatenação.

O que apresentamos neste catálogo são as “inspirações” colhidas por Clarice para A hora da estrela., que, na organização do acervo da escritora, ganharam o termo técnico de notas. As páginas do catálogo, produzidas especialmente para este site, mostram reproduções dessas notas, contendo informações como observações sobre diferenças de caligrafia na nota e identificação das anotações de Olga Borelli.

Fábio Frohwein