A paixão segundo G.H

Martha Alkmin |

Nas linhas que antecedem a abertura deste romance, Clarice Lispector dirige-se a seus “possíveis leitores” dizendo que aquele livro é “como um livro qualquer”, mas que ficaria “contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada”. Se considerássemos apenas o fio do enredo e somente ele, A paixão segundo GH talvez fosse mesmo um livro qualquer. Mas, um passo para dentro do romance, e encontramos uma narração em primeira pessoa, GH, em absoluto estado de concentração e dilatação interior, após a travessia do que se tornaria para ela uma experiência limite. Depois de despedir a empregada, GH inicia uma faxina no quarto de serviço. Mal começa a limpeza, vê uma barata. Enojada do inseto, ela decide esmagá-lo contra a porta do armário. O momento decisivo do enredo e do discurso culmina quando GH devora a massa pastosa e branca da barata morta. Esse gesto desencadeia a desmontagem humana da personagem e lhe impõe uma (in)compreensão súbita dessa “construção difícil que é viver”.

Talvez a partir desse momento seja possível entender por que Clarice se faria contente com certo tipo de leitor. Trata-se de um livro em que tudo concorre para uma experiência de choque, para uma vivência limite centrada no encontro de GH com o inseto. É preciso, então, que esse possível leitor “de alma já formada”, de mão dada com a protagonista, assuma com ela todos os riscos dessa catábase, desse movimento de descida aos infernos que poucos, muito poucos, são capazes de suportar. Descer ao “inferno de vida crua” com o medo de quem sabe estar “indo em direção não da loucura, mas de uma verdade”: eis a danação e o deserto de GH, a origem do desmoronamento de tudo aquilo a sempre estivera habituada. O cotidiano organizável, as certezas tranquilizadoras, a civilidade e a suposta humanidade, tudo desmorona gradual e penosamente no gesto ritualístico de devoração da barata morta. GH atravessa a si mesma e ao seu oposto, o mundo e o avesso do mundo, consciente da impossibilidade de narrar o que vivera, de tornar comunicável aquela “luta primária pela vida”.

No romance, o funcionamento da escrita surge também como experiência de concentração e intensidade. A linguagem transborda, excede e se estilhaça, corta, hesita e irrompe o silêncio, salta feito um tigre no peito do leitor, sussurra, desprende-se dos sentidos convencionais e, a um só tempo, revela-se abundante e insuficiente para cumprir os passos da paixão de GH. Nessa operação meticulosa da escrita, que extrai o máximo de rendimento de um enredo banal, Clarice realiza o que para muitos será o seu maior empreendimento literário.

 

Traduções

 

Lidelseshistorie. RISVIK, Kjell (trad.). Oslo: Gyldendal Norsk Forlag, 1989.

La pasion segun G. H.: novela. GAYO, Juan García (trad.). Caracas: Monte Avila, 1969.

La passió segons G.H. PRATS, Núria (trad.). Barcelona: Empúries, 2006.

El misteri del conill que pensava. RIALP, Enric Tudó i (trad.). Barcelona: Cruïlla, 2007.

El misteri del conill que pensava. 2. ed. RIALP, Enric Tudó I (trad.). Barcelona: Cruïlla, 2008.

G.H.; no juan; Kazoku no kizuna; Raten. TAKAHASHI, Kunihiro (trad.). Tokyo: Shueisha, 1984.

Lidelsen ifølge G.H. SIBAST, Peer (trad.). Aarhus: Husets, 1992.

The passion according to G.H.  TOMLINS, Jack H. (trad.). New York: Knopf, 1977.

The passion according to G.H. SOUSA, Ronald W. (trad.). Minneapolis: University of Minnesota, 1988.

The passion according to G.H. NOVEY, Idra (trad.). New York: New Directions Paperbook, 2012.

La passion selon G.H. FARNY, Claude (trad.). Paris: Des Femmes, 1978.

La passion selon G.H. 2. ed. FARNY, Claude (trad.). Paris: Des Femmes, 1998.

Die passion nach G.H.: roman. BRANDT, Sarita; SCHRÜBBERS, Cristina (trad.). Berlin: Lilith, 1984.

Die passion nach G.H.: roman. 2. ed. BRANDT, Sarita; SCHRÜBBERS, Cristina (trad.). Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1990.

Die passion nach G.H.: roman. 3. ed. SCHRÜBBERS, Christiane; BRANDT, Sarita (trad.). Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1992.

La passione secondo G.H. ALETTI, Adelina (trad.). Torino: De La Rosa, 1982.

La passione secondo G.H. ALETTI, Adelina (trad.). Milano: Feltrinelli, 1991.

La paisión según G.H.: novela. GAYO, Juan García (trad.). Caracas: Monte Avila, 1969.

La pasión según G.H. VILLALBA, Alberto (trad.). Barcelona: 62, 1988.

La pasión según G.H. RODRÍGUEZ, Alberto Villalba (trad.). Barcelona: Muchnik, 2000.

La pasión según G.H. 2. ed. RODRÍGUEZ, Alberto Villalba (trad.). Barcelona: Muchnik, 2001.

La pasión según G.H. CÁMARA, Mario (trad.). Buenos Aires: El Cuenco de Plata, 2010.