Ulisses, um pouco neurótico

Postado por Elizama Almeida / 6 de setembro de 2017 / 0 Comentários

Ulisses não é apenas o grande personagem mítico que, usando de uma ideia ardilosa, pôs ponto final aos dez anos da sangrenta guerra de Tróia, que movia tanto homens quanto deuses. Ao presentear o povo troiano com um cavalo de madeira lotado de soldados gregos, Ulisses, ou Odisseu na referência grega, pode então voltar para casa.

Esse retorno configura uma das obras mais lindas da literatura e está registrada em Odisséia. A partir daqui, inaugura-se então toda uma legião de Ulisses (reais e simbólicos) no escopo literário. A começar pelo óbvio: título do romance de James Joyce – autor irlandês com quem Clarice foi comparada algumas muitas vezes. Ulysses, com Y, narra um curto intervalo da vida do agente Leopold Bloom em uma espécie de Odisséia condensada.

Ainda outro Ulisses está presente em Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres. O romance faz desse personagem professor universitário de Filosofia o condutor de Lóri na aprendizagem do prazer e da autonomia amorosa/sexual.

(Em termos bem mais prosaicos, Ulisses é o nome do gato do vizinho que há três anos me adotou. A gata, parceira dele, se chama Penélope, como no poema homérico.)

Mais prosaico ainda, embora literário, Ulisses foi o último cão de Clarice Lispector, um vira-lata que roubava guimbas de cigarros e filava coca-cola e uísque das visitas. De tão excêntrico – “e um pouco neurótico, ao que consta” –, Ulisses ganhou uma robusta nota no famigerado O Pasquim.

O animal, que atendia também pelos nomes de Vicissitude, Pitulcha e Pornósio, foi comprado quando os dois filhos da autora, Pedro e Paulo, cresceram e seguiram seus caminhos. Ela “precisava amar uma criatura viva que me fizesse companhia”.

Se para um cachorro, “estar com o dono significa estar com Deus”, para alguns donos não é muito diferente. Aliás, é difícil escrever sobre essa categoria, animais, sem escorregar na pieguice. Dentre alguns poucos autores, destaco de Maiakovski uma estrofe tão pungente quanto afetuosa:

Pois, tomai-me para guarda dos bichos.

Gosto deles.

Basta-me ver um desses cães vadios,

como aquele de junto à padaria,

um verdadeiro vira-lata!

e no entanto,

por ele,

arrancaria meu próprio fígado: Toma, querido,

sem cerimônia, come!

 

Em Um sopro de vida, título publicado no ano seguinte à morte de Clarice, o narrador fala longamente sobre Ulisses, o cão.

“Eu sei falar uma língua que só o meu cachorro, o prezado Ulisses, meu caro senhor, entende. É assim: dacoleba, tutiban, ziticoba, letuban. Joju leba, leba jan? Tutiban leba, lebajan. Atotoquina, zefiram. Jetobabe? Jetoban. Isso quer dizer uma coisa que nem o imperador da China entenderia?”. E ainda: “Eu e meu cachorro Ulisses somos vira-latas. Ah que chuva boa está caindo. É maná do céu e só Ulisses sabe disso. Ulisses bebe cerveja gelada tão bonitinho. Um dia desses vai acontecer: meu cachorro vai abrir a boca e falar. Será a glória.”

Clarice resolve a questão da não linguagem do animal de forma não menos criativa. Se o cão seria um estado sem linguagem – “Que inveja eu tenho de você, Ulisses, porque você só fica sendo” –, no infantil Quase de verdade é o próprio Ulisses o narrador da trama que envolve galinhas tolas e uma figueira orgulhosa.

Fincada no bairro Leme, onde Clarice morou por mais de uma década, está sua recém-inaugurada estátua de bronze que hoje atrai centenas de visitantes fazendo inveja ao quase vizinho Drummond mais à frente na orla de Copacabana. Ao lado da plácida figura da autora, está eternizado Ulisses.

Segundo Armando Antenore, “bichos dificilmente ascendem à perenidade do metal ou da pedra”, exceto pelo equinos que acompanham os (nem sempre) heróis de batalha. Ulisses, portanto, é um privilegiado a nível de homenagem municipal.

Dedicado e atento à dona, o vira-lata observa Clarice numa mistura de fascínio e ingenuidade, modo como nós mesmos nos portamos diante de sua obra.

Talvez se Ulisses falasse – e mais, se lesse poesia –,dissesse à dona os versos de Maiakovski na versão humana.

 

elizama

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