Todas as crônicas de Clarice Lispector – por Bruno Cosentino

22 de agosto de 2018 / 0 Comentários

Neste mês de agosto será lançado Todas as crônicas, volume que reúne pela primeira vez, na íntegra, os textos do gênero escritos por Clarice Lispector para jornais e revistas. A edição, que tem organização de Pedro Karp Vasquez, traz um acréscimo de 124 inéditos em livro.

A ligação da escritora com a imprensa é antiga. Antes mesmo de se tornar conhecida por seus livros, havia sido redatora e repórter da Agência Nacional, emprego conseguido mediante declaração de amor à pátria em carta enviada ao presidente Getúlio Vargas. Nessa época, ainda não assinava as matérias. Somente alguns anos mais tarde, depois de lançado seu primeiro romance, Perto do coração selvagem, passou a firmar seu nome n’O Jornal, do amigo Samuel Wainer. Na década de 1960, de forma esparsa, também publicou contos e crônicas na rigorosa revista Senhor. A notoriedade como cronista, no entanto, viria a partir de 1967, quando assumiu coluna no Jornal do Brasil, para o qual escreveu semanalmente durante seis anos.

Dito dessa forma, pode até parecer que a familiaridade de Clarice com o texto para jornal sempre foi pacífica; mas, pelo contrário, ela expôs mais de uma vez certo mal-estar com o tom demasiadamente pessoal assumido na crônica. Em “Fernando Pessoa me ajudando”, por exemplo, escreve:

Na literatura de livros permaneço anônima e discreta. Nesta coluna estou de algum modo me dando a conhecer. Perco minha intimidade secreta? Mas que fazer? É que escrevo ao correr da máquina e, quando vejo, revelei certa parte minha.

A diferença entre “escrever para jornal e escrever livro” foi ainda motivo de reflexões na crônica homônima: “Num jornal nunca se pode esquecer o leitor, ao passo que no livro fala-se com maior liberdade”.

Clarice sempre se mostrou receosa em assinar indistintamente em um meio e em outro. Por isso, nas três experiências em que esteve à frente de colunas dedicadas ao público feminino, durante os anos 1950 e 1960, preferiu resguardar-se sob outros três nomes de mulher: Tereza Quadros, Helen Palmer e Ilka Soares. A desconfiança com o jornal ainda incluía o fato de escrever em troca de dinheiro. Contudo, apesar de se sentir “vendendo a alma”, Clarice construiu uma obra de cronista que agora é posta no mesmo patamar dos contos – prova a edição de Todas crônicas em um único volume, com o mesmo projeto gráfico de Todos os contos, lançado em 2015.

Todas as crônicas está dividido em três partes. A primeira e mais extensa é composta pelas crônicas escritas para o Jornal do Brasil, que haviam sido compiladas anteriormente em A descoberta do mundo, que deixou de fora sessenta textos. Isso se deveu ao fato de no espaço reservado à coluna a escritora ter publicado, por vezes, em vez de um único texto, diferentes fragmentos independentes; nesses casos, alguns foram escolhidos em detrimento de outros. A presente edição preenche essa lacuna; segundo o organizador, agora pode-se ficar sabendo, por exemplo, a opinião de Clarice sobre alguns importantes escritores, como Rubem Braga, Nelson Rodrigues, Jorge Luis Borges, Gabriel García Márquez, entre outros.

A segunda parte apresenta textos das revistas Senhor e Joia e dos jornais Última Hora e O Jornal que nunca haviam sido publicados em livro. A seleção é resultado da pesquisa de Larissa Vaz nos arquivos do Instituto Moreira Salles, da Biblioteca Nacional e da Fundação Casa de Rui Barbosa. A terceira parte, por fim, reproduz as crônicas extraídas da seção chamada “Fundo de gaveta”, publicada originalmente como parte do livro de contos A legião estrangeira, e posteriormente reunidas em Para não esquecer.

Um fato curioso é que, entre as crônicas publicadas pela autora ao longo da vida, muitas foram reaproveitadas em diferentes versões ou simplesmente repetidas (do livro de contos ao periódico ou do periódico ao livro) com intervalos que chegaram às vezes a mais de uma década entre uma e outra. Isso mostra que, a despeito do severo julgamento da autora, não parecia haver uma fronteira assim tão nítida entre “escrever para jornal e escrever livro”. O jornal também servia a Clarice como espaço para sua obra em progresso, no qual publicava trechos embrionários de futuros contos e romances, que ganhariam forma apurada em livro, como é o caso conhecido de Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, em que passagens às vezes inteiras puderam ser antes lidas nas páginas do JB.

Uma diferença é clara: o deadline do jornal impunha à escritora o ritmo do “correr da máquina”, daí o receio tantas vezes apregoado do rudimentar. Mas, como se sabe, Clarice não era pessoa previsível. Em meio às recorrentes queixas, sempre houve uma aceitação lúcida do que lhe causava desconforto no texto rápido, pois, intimamente, é provável que o sentisse como um meio de experimentar os limites de sua escrita. Em vista disso, a mesma escritora que declara “sou muito exigente comigo mesma” ou “tenho medo: escrever muito e sempre pode corromper a palavra” também confessa gostar “de um modo carinhoso do inacabado, do mal-feito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão”.

Clarice falou muito sobre como os cronistas eram amados pelo público. Desde que passou a escrever aos sábados para o JB, ela também recebeu largamente o carinho do leitor de jornal, que enchia de cartas a redação. Regozijava-se sinceramente:

Sou uma colunista feliz. Escrevi nove livros que fizeram muitas pessoas me amar de longe. Mas ser cronista tem um mistério que não entendo […] tem me trazido mais amor ainda. Sinto-me tão perto de quem me lê.

Em algum lugar entre o jornal e o livro, Clarice parece equacionar questões caras a sua personalidade solitária, mas amorosa, a sua escrita hermética, mas sedutora. Não por acaso, em sua ficção, o fato cotidiano é a matéria-prima a partir da qual se pode revelar um “estado de graça”, noção desenvolvida pela própria autora em crônica de mesmo nome e que encontra correlatos em outros termos, como “instante exemplar”, “momento existencial”, “espanto”, “flash”, “instante-já”, por exemplo.

Em vista disso, Todas as crônicas, mais do que colocar em pé de igualdade seus livros e textos para jornal, como foi dito, dá a ver ao lado de Todos os contos – num díptico – a suma da obra de Clarice, situada na linha tênue entre o imanente e o sublime.

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