Clarice é pop

Postado por Victor Heringer / 22 de Fevereiro de 2013 / 0 Comentários

Clarice Pop Arte

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Em tempos de redes sociais, há um movimento de migração, voluntário ou não, do lugar usual e canonizado de artistas, músicos e autores. Leitores, intelectuais ou apenas “citadores” – como é corrente quanto se trata de Clarice Lispector – são os principais responsáveis por tal deslocamento.

Segundo pesquisa feita pelo youpix em junho de 2012, Clarice é a escritora mais citada no Twitter. São postadas diariamente no microblog mais de 3,5 mil frases de sua autoria – ou atribuídas a ela. Com o pequeno limite de 140 toques para cada publicação, não sobram caracteres para se incluir uma básica referência bibliográfica. Isso quando há intenção de quem posta as frases. E se quem conta um conto aumenta um ponto, quem cita uma frase aumenta pontos, vírgulas, palavras e enredos bastante equivocados.

Até no antigo Orkut, foram destinadas quase 300 comunidades a Clarice Lispector, a maior delas composta por 317.015 membros. No atual Facebook, há mais de vinte aplicativos; trinta páginas, que chegam a ter quase 600 mil likes, com títulos, no mínimo, curiosos, como “Clarice de tpm”, “Dose de Clarice Lispector” e “Conselhos de Clarice”. Algumas dessas páginas citam trechos de contos ou romances, enquanto outras unem frases de efeito (de Clarice ou não) a fotos da autora, que hoje podem ser facilmente encontradas no Google, sem a devida preocupação com os direitos autorais sejam dos herdeiros ou dos fotógrafos. E pra não dizer que não falei dos blogs, há centenas e centenas deles mergulhados no universo clariciano.

Esses números podem assustar e colocar em situação desconfortável quem preza pela dita “exclusividade acadêmica” em oposição – geralmente, pejorativa – àquilo que é de “massa”, ou que, pelo menos, é consagrado popularmente.

O que há de Clarice em números revela que seus textos não respeitam fronteiras geográficas, culturais ou espaço-temporais, mantendo-se muito vivos por meio de traduções e reedições, mesmo depois de 40 anos da morte da escritora.

Nesses tempos de intensa subjetividade, de laços sociais líquidos e de necessidade coletiva de realismo – ou de efeitos de real –, há quem cole de forma estreita a literatura à vida; como se na leitura houvesse uma projeção exagerada de si e, por meio dela, fosse possível a expurgação de fantasmas e neuroses pessoais. Quando, na realidade, “a literatura só começa quando nasce em nós uma terceira pessoa que nos retira o poder de dizer Eu” (Gilles Deleuze, Crítica e clínica).

E talvez seja esse movimento de leitura, o de colagem pessoal, e não a popularização das obras, aquilo que diminui a real potência e o permanente devir que há na escrita de Clarice Lispector, subvertendo sua obra em simplicíssimas doses de autoajuda, em indiretas de fundo moral ou em vaticínios instáveis de um guru qualquer.

victorheringer

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