Clarice e Lucrécia em Berna – por Marco Antonio Notaroberto

Postado por Elizama Almeida / 30 de outubro de 2017 / 0 Comentários

O texto a seguir nasceu a partir de uma pesquisa da correspondência entre Clarice Lispector e suas irmãs Tania Kauffman e Elisa Lispector durante o período que esteve na Suíça, isto é, 1946 a 1948. O autor Marcos Antônio Notaroberto*, a partir desse contexto, se lança sobre essas cartas – atualmente sob a guarda do IMS – e a construção do romance A cidade sitiada articulando tanto o exílio, de certa forma, voluntário de Clarice, quanto o exílio de Lucrécia, personagem do romance que seria publicado apenas em 1948.

Terras de Berna

 Clarice Lispector chega à cidade suíça de Berna em abril de 1946, após a remoção de seu marido que servia como vice-cônsul em Nápoles desde 1944. A esta altura já era autora de dois romances. O romance de estreia, Perto do coração selvagem, escrito no Brasil e publicado em 1944, lhe rendeu críticas, em sua maioria positivas, por sua linguagem inovadora no panorama da literatura brasileira até aquele momento.

Dentre os críticos que se manifestaram sobre o romance estava Antonio Candido, que dizia ser Perto do coração selvagem,

dentro de nossa literatura, uma performance da melhor qualidade. A autora – ao que parece uma jovem estreante – colocou seriamente o problema do estilo e da expressão. Sobretudo desta. Sentiu que existe uma certa densidade afetiva e intelectual que não é possível exprimir se não procurarmos quebrar os quadros da rotina e criar imagens novas, novos torneios, associações diferentes das comuns e mais fundamente sentidas. A descoberta do cotidiano é uma aventura sempre possível, e o seu milagre uma transfiguração que abre caminhos para mundos novos.

Sergio Millet apontaria o surgimento da obra de Clarice Lispector

como a mais séria tentativa de romance introspectivo. Pela primeira vez um autor nacional vai além, nesse campo quase virgem de nossa literatura, da simples aproximação; pela primeira vez um autor penetra até o fundo a complexidade psicológica da alma moderna, alcança em cheio o problema intelectual, vira ao avesso, sem piedade nem concessões, uma eriçada de recalques.

Tais críticas que a aclamaram como um expoente literário logo em sua estreia, principalmente por tratar o aparecimento do romance como uma mudança de paradigma nas letras brasileiras, “uma experiência estilística muito séria” (Óscar Mendes, agosto de 1944), caracterizaram seu modo de entrar “no cânone da história literária como ruptura (nitidez, brilho, destacabilidade) num horizonte baço”.

A consequência desta estreia provocou no imaginário público uma aura de “figura mítica” (algo que ainda perdura), e o peso desta responsabilidade recai em seus ombros na forma de grandes expectativas por novos escritos brilhantes.

Seu segundo romance, O lustre, foi publicado no em 1945. As críticas não foram tão positivas como as de seu antecessor, deixando Clarice Lispector, já longe de seu país, abatida. “A obra [foi] um tanto quanto ofuscada pela estreia do diplomata João Guimarães Rosa na literatura, com Sagarana, que captava a atenção da crítica” naquele momento, e teve pouca receptividade do público leitor.

Em 1946, Clarice começa a escrita de seu terceiro romance, A cidade sitiada, já instalada em Berna onde morou por três longos anos. O mesmo tempo necessário para a execução da obra, publicada no Brasil em 1949 pela editora A Noite.

Os anos passados em Berna foram difíceis para Clarice Lispector principalmente pela ausência da família e de amigos, como também pela não adaptação à cidade, que descreveu como uma espécie de túmulo.

Há, neste período, intensa troca de correspondência com uma variedade de escritores e intelectuais brasileiros, dentre eles Manuel Bandeira, Lucio Cardoso, Fernando Sabino e João Cabral de Melo Neto (os dois últimos vivendo fora do Brasil), onde a escritora toca em questões relacionadas à sua situação de estrangeira.

Posteriormente, Clarice retornará aos sentimentos de desolação da época de exílio em crônicas, algumas autobiográficas, publicadas no Jornal do Brasil entre agosto de 1967 e dezembro de 1973.

Rememorando seu período em Berna escreve em “Noite nas montanhas”:

É tão vasta. Tão despovoada. A noite espanhola tem o perfume e eco duro do sapateado da dança, a italiana tem o mar cálido mesmo se ausente. A noite de Berna tem o silêncio. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponte que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silencio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembrança de palavras. Se és morte, como te alcançar. […] Então, se há coragem, não se luta mais. Entra- se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas.

Na crônica “A comunicação muda”, Clarice toma a escrita de A cidade sitiada como um refúgio em meio à sua infeliz e silenciosa situação. Nesta, ela narra que a salvação

da monotonia de Berna foi viver na Idade Média, foi esperar que a neve parasse e os gerânios vermelhos de novo se refletissem na água, foi ter um filho que lá nasceu, foi ter escrito um de meus livros menos gostado, A cidade sitiada, no entanto, relendo-o, pessoas passam a gostar dele; minha gratidão a este livro é enorme: o esforço de escrevê-lo me ocupava, salvava-me daquele silêncio aterrador das ruas de Berna, e quando terminei o último capítulo, fui para o hospital dar à luz o menino. Berna é uma cidade livre, por que então eu me sentia tão presa, tão segregada? Eu ia ao cinema todas as tardes, pouco me importava o filme. Naquela hora do crepúsculo, sozinha na cidade medieval, sob os flocos ainda fracos de neve – nessa hora eu me sentia pior do que uma mendiga porque nem ao menos eu sabia o que pedir.

Clarice experimentava tal sensação de desterro que ressonava no exercício literário, tanto na escrita de correspondência quanto na do próprio romance.

Porém, o lugar que Clarice Lispector escolheu para falar mais abertamente das agruras da vida suíça foi em sua correspondência familiar. Cartas trocadas com suas irmãs Elisa Lispector e Tania Kaufmann registram o momento de profunda insatisfação vivido pela artista e demonstram de forma clara como o seu exílio voluntário foi a integração entre corpo no mundo e a palavra; o experimentar em forma de rebentação na linguagem.

O exílio clariciano

Por favor, por favor, por favor, me escrevam.

13 de abril de 1947

Haia Lispector nasce em 1920, no exílio. A menina, filha de russos, vem ao mundo em Tchetchelnik, uma aldeia ucraniana, durante o percurso de imigração de sua família para a América, devido às sucessivas guerras e à perseguição antissemita perpetrada na Rússia durante a Revolução Bolchevique.

Clarice Lispector, no entanto, nasce no Brasil, mais especificamente no Nordeste, em Recife, terra onde foi criada. Sobre isso, escreve em A descoberta do mundo:

Criei-me no Recife, e acho que viver no Nordeste ou Norte do Brasil é viver mais intensamente e de perto a verdadeira vida brasileira […] Fiz da língua portuguesa a minha vida interior, o meu pensamento mais íntimo, usei-a para palavras de amor. Comecei a escrever pequenos contos logo que me alfabetizaram, e escrevi-os em português, é claro.

O exílio político vivido por Haia não será aqui considerado. É interessante pensar o exílio voluntário de Clarice, ocasionado pelo casamento com Maury Gurgel Valente.

O exílio, seja lá qual for, é “uma fratura incurável entre o ser humano e um lugar natal, entre o eu e seu verdadeiro lar”. Desta fratura surgem dois sentimentos largamente opostos: a dor da perda e o entusiasmo pelo desafio de adaptação.

Para a sobrevivência do corpo no exílio a dor precisa ser soterrada pelo entusiasmo. Os desafios da vida em novas fronteiras acabam por provocar no estrangeiro uma anestesia do sentimento de perda e assim ocorre o desenraizamento, gradual e exponencial, até se chegar ao necessário esquecimento ou à transformação da memória afetiva em lembranças.

Todo o “pathos do exílio está na perda de contato com a solidez e a satisfação da terra”, e sua superação está intimamente ligada a um virar as costas a terra natal culminando em um matricídio. O matricídio é a reação de apagamento. O estrangeiro, pensado em termos de poder político e de direitos legais, é tocado pelo sentimento de deslocamento referente a perda espacial, o que o impele a olhar para a sociedade nativa como um corpo homogêneo estranho e ameaçador.

O abismo entre o estrangeiro e todos os componentes da terra estranha o impede de se integrar e de consequentemente possuir direitos, surge daí o desejo de apagamento da origem que vem, por sua vez, de um desejo maior de pertencimento que move o estrangeiro sempre em direção à criação de novas raízes sócio-políticas no espaço do outro.

Porém, o ato de desligar-se do útero é gerador de angústia, outro tipo da mesma dor inicial de corte, e de uma dura indiferença a tudo que o rodeia em seu novo ambiente, incluindo as pessoas com quem convive. Esta “dura indiferença talvez seja somente a face confessável da nostalgia. Conhecemos o estrangeiro que chora eternamente o seu país perdido. Enamorado melancólico de um espaço perdido, na verdade, ele não se consola é por ter abandonado uma época de sua vida”.

No caso de Clarice Lispector as linhas do exílio não são assim tão retas. A escritora não opera o matricídio justamente porque aguarda impacientemente o retorno ao seu país de origem e a tudo o que ele representa, e mesmo mantendo-se ligada de alguma maneira ao útero de sua terra, a experiência torna-se ainda mais angustiante pelo simples fato de não estar lá.

Aí está a diferença crucial entre o exílio voluntário e o exílio político. Ambos compreendem todas as características de perda inerentes ao termo, porém o segundo configura que a volta ao lar está fora de questão enquanto que o primeiro deixa uma porta entreaberta, tornando assim mais difícil sua superação e a integração espacial e psicológica do indivíduo.

A necessidade de controle que subjuga o exilado diante de seu estado de perda desorientadora exige dele a criação de um novo mundo. No papel de demiurgo, o exilado produz um espaço à parte de sua realidade, o qual é “logicamente artificial”. No caso de escritores, este outro lugar se dá na própria escrita em movimento constante.

Em seu período de exílio em Berna, Clarice escreve, além de A cidade sitiada, inúmeras cartas à Elisa e Tania. A escritora se refugia no ventre de sua língua e pede incessantemente às irmãs que fortaleçam o laço que a traz de volta para o seio de sua família no outro continente.

“O estrangeiro é, portanto, aquele que perdeu a mãe.”

Como Dante, que escreveu A divina comédia em seu exílio de Florença, escrever na língua natal era, para Clarice, “um meio de se dar um universo no momento mesmo em que o lugar próprio lhe faltava”.

A importância vital da correspondência para o exilado se torna clara em seu caso. A escrita de seu terceiro romance era algo que não satisfazia totalmente a sua necessidade de refúgio[1]. Ela diz em cartas:

Vocês nunca experimentaram o que é receber cartas quando se está fora, sobretudo fora como eu, inteiramente fora: pergunta-se sem esperança, mas cheia de esperança e quase certeza: há cartas para mim.

Eu aprendi uma sensação nessa minha vida fora às vezes eu me sinto como se fosse receber carta […] Com o esforço de esperar através do mundo inteiro a carta que não vem, parece que afinal eu me ponho em contato com vocês através da distância.

Peço que se tiverem tempo me escrevam. O dia de receber carta é um dia glorioso, toda Berna sacode as asas de alegria.

Ora, toda a carta recebida necessitava de uma outra em resposta! E assim Clarice passa os anos sempre à espera do contato natal de que tanto precisa. Na correspondência familiar deste período não são raras suas reclamações referentes à ausência de recebimentos frequentes. A carta datada de 30 de junho de 1946 inicia-se assim:

Queridas, sem nenhuma carta para responder, de novo. Mas escrevo. A última carta recebida foi no dia vinte, data de 15. Receio muito que vocês estejam me esquecendo. Me arquivaram depressa demais. De minha prisão em Berna, mando-lhes minhas lembranças comovidas…

A correspondência se torna única quando “nos faz participar dos diferentes estados, mesmo dos estados da alma (e do corpo) daquele que a escreveu”, e Clarice transmite em linhas todo o sentimento de incompletude vivido naquele momento, que suplementa, sem dúvida, o seu trabalho.

O que se percebe na leitura da correspondência de Clarice às irmãs, em especial à Tania, é a experimentação deste novo mundo de sensações, oferecidas ou desenvolvidas pelo exílio, através da escrita. Desta maneira, a intensa escrita de cartas que rodeia a gênese de A cidade sitiada se revela também como um lugar interessante para o “laboratório criativo”.

As cartas expõem de forma clara sua complicada relação com a escrita do romance e observam, em suma, o seu enredo e a construção dos personagens, os quais estão emaranhados de emoções lúgubres.

Na carta datada de 22 de outubro de 1947, Clarice diz a Tania:

Estou com o livro por assim, terminado. Deus sabe que ele não vale nada, querida. Creio que nuns dois meses posso dá-lo por encerrado. Acontece que vou encerrá-lo porque já tenho nojo dele. Foi o trabalho que mais me fez sofrer. Já são três anos que viro e mexo, abandono e retorno. E faz apenas uns 3 meses que sei afinal o que estava querendo dizer nele…. Esse livro foi mil vezes copiado, destruído, renascido, sei lá. Um dia desses, pegando numa das cópias mais recentes me deu náusea física à medida que me lembrava de como sofri por cada pedaço daquele e de como depois eu via que não prestava. Tive que não pensar nele durante dias – porque persistia em mim esse curioso nojo da dor. Enfim, querida, o livro não presta.

Ainda, na mesma carta, reitera sobre seu período como estrangeira em Berna:

Não evoluí nada, não atingi nada. Continuo com os pés no ar, continuo vaga e sonhadora, deslocando de algum modo todo o sentimento da vida. […] Em todo esse período de 3 anos, desempenhou grande papel minha desadaptação.

Tais declarações sobre sua desadaptação e vaguidão serão vislumbradas principalmente na protagonista Lucrécia Neves e na personagem-cidade de São Geraldo. Tanto a mulher quanto a cidade são sonambúlicas e estéreis. O estado de sono, o exílio, o sentimento de desenraizamento e suas consequências são algumas das sensações encontradas abundantemente nas cartas e que atravessam igualmente todo o romance.

Enfim, em 1949, A cidade sitiada é publicada no Brasil. Por coincidência no mesmo ano em que Clarice Lispector retorna a sua terra. Assumidamente é seu livro menos gostado, o que lhe confere o status de cicatriz no corpo de sua literatura. Cicatriz que o sublinha como um ponto fora da curva em toda a obra clariciana que é largamente conhecida por seus personagens monológicos, profundos e epifânicos. Em meio a toda a produção da escritora, jaz Lucrécia Neves como o avesso, como a oca, como a rasa. Afinal, uma estrangeira.

A personagem acompanhou de perto o exílio de Clarice. Melhor dizendo, Lucrécia Neves, estrangeira em sua própria terra, vem a ser o próprio pathos de insatisfação do exílio geográfico desdobrado em um outro tipo: o exílio de si.

O exílio lucreciano

O que há fora, nós o sabemos apenas

pelo semblante do animal; desde pequenina,

obrigamos a criança a voltar- se e ver, atrás,

só o Aparente, não o Aberto, que

na cara do animal é tão profundo. Isento de morte.

Rainer Maria Rilke

As sensações que atravessam A cidade sitiada são letárgicas. Toda a vida da protagonista Lucrécia Neves gira em torno de um não-fazer, de ser levada pela vida ao sabor das circunstâncias. As cartas de Clarice também são permeadas por estas sensações.

Procuro evidenciar algumas destas sensações[2] nas duas escritas e lê-las lado a lado para pensar sobre as suas manifestações e desenvolvimentos. Mas, para esta perspectiva de leitura, é necessário novamente sublinhar que “a obra não foi aqui considerada como uma mensagem ou resíduo, como a simples tradução de alguma meditação interior ou como o traço meio apagado de qualquer inefável êxtase. A escrita faz parte também da experiência mais íntima; ela desposa suas estruturas, mas é para modificá-las, revertê-las”.

Exílio, desenraizamento e apatia

 Quando abrimos um livro e olhamos para baixo vemos as letras enfileiradas, as palavras em ordem formando frases encarregadas de serem legíveis, de doarem algum sentido. A todos os componentes da página, da primeira letra do capítulo até o número que as ordena, são atribuídas funções para a construção de um todo: o livro.

Nada mais análogo a uma cidade que um livro. Se estivéssemos acima, afastássemos as nuvens e nos aproximássemos, com os olhos, de uma cidade veríamos as pessoas como as palavras. Cada qual em seu lugar, cada qual com uma função e significado. Trabalhando, trabalhando, trabalhando… Ou não.

A cidade sitiada é desconfortável. O esforço de sair do cerco pesa sobre ela. Seus cidadãos estão ali, amalgamados à sua solidez, rodeando-a até escaparem. Há vários tipos na cidade, porém dois estão olhando pela janela com a cabeça para fora. Um homem chamado Perseu e uma mulher chamada Lucrécia. Quem são eles? São o desconforto.

Perseu não parecia sentir mais do que sua própria harmonia, porque “este era o seu grau de luz. Não importa que na luz fosse tão cego como os outros na escuridão. A diferença é que estava na luz”.

Lucrécia era de uma natureza que parecia “não ter se revelado: era hábito seu inclinar- se falando às pessoas de olhos entrefechados – parecia então com o próprio subúrbio, animada por um acontecimento que não se desencadeava. A cara inexpressiva a menos que um pensamento a fizesse hesitar. Embora não fosse esta possibilidade de espírito e doçura que ela aproveitava”.

O homem, “moroso e cheio de sol”, estava na cidade. A mulher entrefechada, no escuro, estava na cidade. Ambos imitavam São Geraldo, mas a mulher o imitava mal, naufragando em seu exílio. “Ela era dessas pessoas estrangeiras que diziam ‘no meu país é assim’”. Mas qual país?

Perseu e Lucrécia tinham em comum a terra, porém mais nada. Perseu era o que Lucrécia não conseguiu ser; era parte de algo. Após uma tentativa de romance frustrada, ela, casada com um forasteiro, pronta para ir embora, dele se despede chamando-o de irmão.

Mais tarde retornaria ao subúrbio, assustada pela metrópole que não era o que deveria ser. A metrópole era violenta com Lucrécia, pois não era direta como ela. E desnorteada pelo seu desenraizamento súbito, tinha esperança de que em São Geraldo ainda a “rua fosse rua, igreja igreja, e até cavalos tivessem guizo”. Mas perdeu o tempo, não alcançou. São Geraldo inquietara-se e Lucrécia o temia também.

São Geraldo não estava mais no ponto nascente, ela perdera a antiga importância e seu lugar inalienável no subúrbio. Havia mesmo planos para a construção de um viaduto que ligaria o morro e a cidade baixa… os terrenos do morro já começavam a se vender para futuras residências: para onde iriam os cavalos?

O desarranjo da cidade moderna, onde as coisas não parecem o que são, abandona a mulher, sempre a espiralar, a procura de algo. Seu “espirito tosco” não consegue assimilar progressos e deseja sempre estar tocando o arcaico, a natureza bruta. Que desvanece.

Lucrécia somente via, “tudo o que Lucrécia Neves podia conhecer estava fora dela”. Permanece exilada de si como uma coisa. E “quando uma coisa não pensava, a forma que possuía era seu pensamento”. Sem pensamento, esta mulher é apática. Toma a forma que as pessoas percebem dela e para ela está tudo muito bem.

Tais sensações que permeiam o romance passam também pela correspondência de Clarice Lispector. A escritora em exílio está desconfortável. Diz para Tania, sua irmã, que está cansada de “tentar pelo pensamento sair fora da vida que [leva] que não [tem] gosto nem forças para trabalhar”.

Desde que saí do Brasil para ir a Nápoles, desde que fui a Belém, minha vida é um esforço diário de adaptação nesses lugares áridos. […] Desde então não tenho cabeça para mais nada, tudo o que faço é um esforço, minha apatia é tão grande, […] faço tudo na ponta dos dedos, sem me misturar a nada. Vai fazer três anos disso, três anos diários.

A respeito do livro que escreve sobre a cidade e sobre Lucrécia, conta: “Meu livro está encostado. Já não sei chegar até ele. Abandonei ele muitas vezes demais, e agora precisaria revivê-lo todo para transformá-lo”.

Clarice enfrenta a apatia enorme devido a seu desenraizamento, a qual materializa em suas cartas:

Ando em nova onda de apatia, o que é coisa velha… Chego a pensar que nem a volta ao Brasil me dará um jeito. Mas sonho com ela. Em agosto teremos 5 anos no exterior. Não são cinco dias. Cinco anos de não saber o que fazer, cinco anos durante os quais, dia a dia, me perguntei como pergunto a vocês: que é que eu faço? Para vocês terem uma ideia do que tem sido minha vida durante esses anos: para mim todos os dias são domingo. Domingo em São Cristóvão, naquele enorme terraço daquela casa. A pessoa, individualmente perde tanto de sua importância, vivendo assim, fora, em ócio. A vida começa a parar por dentro, e não se tem mais força de trabalhar ou ler. Só chaleira fervendo é que levanta a tampa. A Europa é o mundo, é da Europa que ainda saem as melhores coisas. Eu não conheço ninguém e me sinto esmagada por essa entidade abstrata que não consegui concretizar em nenhum amigo. Berna é um túmulo, mesmo para os suíços. E um brasileiro não é nada na Europa. A expressão mesmo é: estar esmagada.

Sono, inércia e tédio

 O tempo do romance é o tempo do sono, o não-tempo.

Mal acabara de falar o relógio da igreja bateu a primeira badalada, dourada, solene. O povo pareceu ouvir um momento o espaço… O estandarte na mão de um anjo imobilizou-se estremecendo. Mas de súbito o fogo de artifício subiu e espocou entre as badaladas. A multidão, tocada do sono rápido em que sucumbira, moveu-se bruscamente e de novo rebentaram os gritos no carrossel.

A narrativa começa em uma celebração municipal ao padroeiro da cidade, São Geraldo. A festa aparece como um antigo ritual pagão onde uma fogueira gigante, ao centro do largo da igreja, dança bruxuleante aos olhos do povo que como mariposas atraídas por sua luz viva a rodeiam hipnotizados e avermelhados.

Porém, na cidade com nome de santo, Dioniso está ausente. “Sonolentas, obstinadas, as pessoas se empurravam com os cotovelos até fazerem parte do círculo silencioso que se formara em torno das chamas.”

O povo de São Geraldo é sonolento. A sensação é de se estar, ainda, em um terreno neutro onde não existe pressa, nem horas marcadas. A percepção do tempo no romance caminha junto com a não adequação ao espaço, por isto o tempo não adquire muita importância e os dias podem parecer anos ou anos podem parecer dias.

A escritora experimenta o peso do tempo em Berna. Conta em carta para Tania que “os meses passam depressa, felizmente. Os dias às vezes é que não passam”. E ainda sobre a Suíça, reflete:

A Suíça é sólida e quando a gente abre os olhos de manhã sabe que ela está ali onde se deixou. Não tem o caráter de terra magnânima como a Itália, por exemplo, ou a França, onde as coisas são espontâneas e variadas que terminam dando certa confusão ao ambiente; aqui cada coisa tem seu lugar, há silencio e dignidade. Dignidade excessiva às vezes; Lausanne já é diferente de Berna; as pessoas têm o ar mais vivo, se olham mais, a cidade é mais larga e parece mais jogada. Enquanto Berna parece que foi recortada…

Com sono está Lucrécia. Em sua inércia a “moça não tinha imaginação, mas uma atenta realidade das coisas que a tornava quase sonâmbula; precisava de coisas para que estas existissem”.

O barulho de seus bocejos ecoa por toda sua história. Após sua quase epifania, seu único momento perigoso, “Lucrécia Neves bocejou livremente tantas vezes seguida que parecia uma louca, até se interromper saciada”.

O sono, a inércia e o tédio transformam São Geraldo em um eterno domingo, silencioso e opaco, que leva os personagens sempre a um desejo maior de sono, sempre a um oposto do viver.

“O subúrbio de São Geraldo, no ano de 192…” parece um filme mudo em preto e branco e em câmera lenta, como num sonho de Lucrécia contado a Perseu:

– Esta manhã eu estava dormindo – disse ela de repente como uma criança – quando uma coisa me acordou, mas depois fui adormecendo e sonhei que alguém dava a cada pessoa o sono perdido, para a gente recuperar, sabe? Então me perguntava se para mim era mil ou dois mil anos de sono, aí eu dizia dois mil, então me fechavam de novo os olhos e aí eu…

Espreguiça-se, abre-se a boca e se volta a dormir. Os flocos de neve caem vagarosamente lá fora e é tudo mágico, estranho e sem prazer.

O êxtase da visão

Devido ao exílio de si, Lucrécia Neves sofre o exílio dentro do universo de personagens da obra clariciana.

O crítico literário Benedito Nunes, em seu ensaio “A cidade sitiada: uma alegoria”, aponta alguns aspectos que diferenciam o romance e seus personagens dos seus antecessores, Perto do coração selvagem e O lustre:

O primeiro aspecto a ser considerado nesse terceiro romance de Clarice Lispector […] é a presença de um ambiente, o subúrbio, que circunscreve os gestos e atos dos personagens, inclusive e principalmente da protagonista. As mudanças do meio delimitam a ação romanesca, que principia com elas e termina quando se completam.

Destaca, ainda, como segundo aspecto “a sucessão dos episódios que formam, em conjunto, quadros estáticos da vida de província, alguns dos quais primam pelo detalhe caricatural e pela intenção satírica”.

Para Benedito Nunes, o romance possui

elementos que realçam o humor, ausente dos romances anteriores, como dimensão própria da obra […] a narradora se distancia da heroína e, descomprometida com as suas vivências, empresta-lhe aos gestos algo de maquinal, e aos pensamentos mais secretos uma ênfase cômica. […] O humor em A cidade sitiada neutraliza a realidade, dissolvendo-a numa sucessão de aparências equívocas.

Na mesma chave de leitura segue a teórica Olga de Sá. Em Clarice Lispector: a travessia do oposto, o capítulo dedicado ao romance chama-se “A reversão paródica do ver em espiar”. Nele, Sá caracteriza o quadro do romance como de paródia embasando sua análise de Lucrécia Neves em uma comparação com as protagonistas de Perto do coração selvagem e O lustre, Joana e Virgínia.

Na vida pequeno-burguesa de Lucrécia, nada penetra em sua opacidade. A personagem é inacessível a renovações e se contenta com migalhas. Mas há que se chamar atenção que tais migalhas na verdade não existem. Destituída de pensamento analítico e de imaginação Lucrécia vive plenamente e é feliz.

No capítulo IV do romance, “A estátua pública”, a protagonista experimenta um momento de quase revelação, “porém, novamente a atmosfera do subúrbio perpassa a sala e não temos a epifania, mas sua paródia”.

A epifania repleta de graça e flexibilidade de movimentos e gestos harmônicos na experiência de Joana é diferente do que acomete Lucrécia. É o “avesso da epifania, uma deformação e caricatura, cacoete. Estes parodiam aqueles, para que Lucrécia, em vez de nascer para a vida de mulher, se imobilize em objeto, em estátua”.

Então estendeu uma das mãos. Hesitante. Depois mais insistente. Estendeu-a e repentinamente entortou-a mostrando a palma. No movimento o ombro se alçou aleijado… Mas era assim mesmo. Estendeu o pé esquerdo para fora. Deslizando-o pelo chão, as pontas dos dedos oblíquas ao tornozelo. Estava de algum modo tão retorcida que não voltaria a posição normal sem esfuziar-se em torno de si própria. Com a palma cruelmente à mostra, a mão estendida pedia e ao mesmo tempo: indicava. […] Tão humilde e irada que não saberia pensar; e assim dava o pensamento através de sua única forma precisa – não era isso o que sucedia às coisas? – inventando por impotência um sinal misterioso e inocente que exprimisse sua posição entre as coisas, escolhendo a própria imagem e através desta a dos objetos. Nesse primeiro gesto de pedra o oculto estava exteriorizado em tal evidência. Conservando para a sua perfeição o mesmo caráter incompreensível: o botão inexplicável da rosa se abrira trêmulo e mecânico em flor inexplicável.

Portanto, sem haver introspecção, a vida interior se configura graças à situação da personagem num contexto de fatos e acontecimentos. As análises críticas de Benedito Nunes e Olga de Sá pontuam apaixonadamente o tom paródico que o romance estabelece com seus antecessores; paródia que concede ao romance o pathos do exílio que se reafirma repetidamente em suas mais variadas nuances.

No entanto, há outra leitura possível de A cidade sitiada como um romance independente e não genealógico de toda a obra da escritora, removendo, portanto, um possível caráter de romance menor.

Clarice Lispector se debruça em um estudo sobre um outro tipo de êxtase. Lucrécia Neves não se dá a epifanias e a monólogos interiores por uma razão: ela é assaltada pelo êxtase da visão. Êxtase que, parece, é intrínseco ao progresso técnico que, no romance, se apresenta como a metropolização da cidade.

O que ocorre em A cidade sitiada é uma discussão a respeito da vida urbana repleta de fatores externos que impossibilitam o indivíduo de se conectar intimamente a sua origem natural. A profundidade e urgência da crítica feita por Clarice Lispector não poderia se resumir a leitura canônica da obra como paródia. A protagonista é exilada de si por ser inatamente urbana.

Daí surge em Lucrécia Neves um revés:

– Papai se queixa da casa, disse jogando com atenção a pedra longe. É cheia de .. Esta noite senti mosquito, mariposa, barata voadora, já nem se sabe mais o que está pousando na gente.

– Sou eu, disse Lucrécia Neves com grande.

Eis o cinismo.


[1] Em carta datada de 14 de agosto de 1946, Clarice diz a Tania que o processo de escrita de A cidade sitiada é complicado. “Meu livro está encostado. Já não sei chegar até ele. Abandonei ele muitas vezes demais, e agora preciso revivê-lo todo para transformá-lo. Com seu auxilio longínquo, vou tentar de novo.” Todo o processo de escritura do romance foi muito moroso, repleto de desistências e posteriores recuperações. Algo que ilustra como Clarice sofria de um embotamento artístico devido ao exílio em Berna e como a troca de correspondência foi seu principal refúgio.

[2] O método que tomo por base está em Littérature et sensation: Stendhal/Flaubert, de Jean-Pierre Richard. Richard lê os romances de Flaubert paralelamente à sua correspondência pessoal detectando nela sensações que são plasticamente trabalhadas nos romances. Acusado pela crítica de psicologismo, devido a um outro livro (L’univers imaginaire de Mallarmé) no qual usa este mesmo método, Richard é defendido por Foucault em um ensaio datado de 1964, O Mallarmé de J.-P. Richard. Foucault percebe no método de Richard não um psicologismo, mas um itinerário no labirinto de textos ligados a um nome, ou seja, a um autor. Diz Foucault que “essa massa documentária da linguagem imóvel (feita de um maço de rascunhos, fragmentos, rabiscos) não é apenas um acréscimo ao Opus, como uma linguagem circunvizinha, satélite e balbuciante, destinada apenas a melhor fazer compreender o que é dito no Opus; não é dela a exegese espontânea; tampouco um acréscimo à biografia do autor, permitindo descobrir seus segredos, ou fazer surgir uma trama ainda não visível entre a ‘vida e a obra’. O que emerge de fato com a linguagem estagnante é um terceiro objeto, irredutível. […] É fácil criticá-lo [Richard] em nome das estruturas ou da psicanálise. Porque seu domínio não é nem o Opus nem a Vie de Mallarmé, mas aquele bloco de linguagem imóvel, conservado, jacente, destinado não a ser consumido, mas iluminado – e que se chama Mallarmé. […] O Mallarmé que Richard estuda é, portanto, exterior à sua obra, mas de uma exterioridade tão radical e pura que ele não passa do sujeito dessa obra; ele é sua única referência; mas só tem ela como conteúdo; ele só mantém relação com essa forma solitária”.


*Marco Antonio Notaroberto é formado em Letras pela UniRio e organizou a correspondência de Clarice Lispector com as irmãs no Acervo do IMS.

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