Uma crítica selvagem para Perto do coração

3 de março de 2017 / 0 Comentários

É final de 1943. Sai por uma editora de parca relevância cultural, A Noite, o inusitado Perto do coração selvagem, livro de uma autora de 22 anos incompletos, ex-funcionária da casa. Dois dos principais críticos da época, Álvaro Lins e Otto Maria Carpeaux, tiveram, anteriormente, acesso aos manuscritos desse romance. Tanto o editor da prestigiosa José Olympio quanto Carpeaux desaconselharam seu lançamento. Contrariando essas opiniões, o livro sai com uma tiragem de mil cópias (esgotadas em junho do ano seguinte). A autora não ganha muita coisa, além de cem exemplares para distribuir entre amigos e família.

Lins, como um dos mais respeitados críticos e também editor chefe do Correio da Manhã, publicará no dia 11 de fevereiro de 1944 por este periódico o artigo “Romance lírico”, no qual se dedicará a Perto do coração selvagem e a essa desconhecida, Clarice Lispector.

Os argumentos usados pelo crítico lidos a partir de hoje garante uma leitura se por um lado absurda ao usar como critério o gênero feminino em oposição ao masculino para justificar muitos aspectos da obra, por outro lado, não deixa de ser divertida.

Uma característica da literatura feminina é a presença muito visível e ostensiva da personalidade da autora logo no primeiro plano. É certo que, de modo geral, toda obra literária deve ser a expressão, a revelação de uma personalidade. Há, porém, nos temperamentos masculinos, uma maior tendência para fazer do autor uma figura escondida por detrás das suas criações (…). Logo se vê que as mulheres estão inclinadas de modo especial para essas formas literárias que permitem projeções mais diretas e sensíveis das suas personalidades.

Álvaro Lins vai situar o romance dentro da vertente lírica, “a descoberta de um novo mundo psicológico, (…) essa espécie de aventura, de exploração através de terrenos até então inexplorados das paixões humanas”, selecionando como exemplar a literatura produzida por Proust, James Joyce e Virginia Woolf.

E a obra da aventura poética e psicológica, mais do que qualquer outra, é o moderno romance inglês, no qual se encontram algumas escritoras como figuras das mais representativas. E a união do lirismo com o realismo, do sentimento poético com a capacidade de observação – é que retira do moderno romance poético a sua tendência para o pieguismo e para a visão cor de rosa da vida. (…) Não há contradição entre o lirismo e a visão aguda do mundo, uma visão que, às vezes, chega a ser pungente e cruel. Um exemplo deste efeito surpreendente, surgido na ficção pelo entrelaçamento do lirismo com o realismo, está na obra de Virginia Woolf.

E dentro dessa tradição, “Não tenho receio em afirmar, no entanto”, diz o crítico, “que o livro da sra. Clarisse Lispector (sic) é a primeira experiência definida que se faz no Brasil do moderno romance lírico”, conjugando a técnica do autor de Ulisses com o “temperamento feminino”.

Embora reconheça que Perto do coração selvagem “provoca desde logo uma surpresa perturbadora. A surpresa das coisas que são realmente novas e originais”, Lins termina o artigo dando o romance como incompleto, “cheio de imagens, mas sem unidade íntima. Aqui estão pedaços de um grande romance, mas não o grande romance que a autora, sem dúvida, poderá escrever mais tarde”.

Clarice, recém-casada e morando em Belém, escreve à irmã Tânia Kaufmann, em 16 de fevereiro –  isto é, cinco dias depois da publicação deste artigo: “As críticas não me fazem bem. A do Álvaro Lins (…) me abateu e isso foi bom de certo modo. Escrevi para ele dizendo que não conhecia Joyce nem Virginia Woolf nem Proust quando fiz o livro, porque o diabo do homem só faltou me chamar ‘representante comercial’ deles”. Mas a carta um tanto aborrecida não foi, afinal, enviada.

Com ânimos menos exaltados, a própria Clarice revê a crítica e diz em nova missiva do dia 23: “eu não escrevi ao Álvaro Lins dizendo aquilo sobre o romance não ser o ‘meu romance’ porque não interpretei a crítica dele assim”.

A essa altura, porém, não sabiam, nem Álvaro Lins, nem Clarice, que em outubro daquele mesmo ano Perto do coração selvagem receberia o prêmio Graça Aranha, cujo principal critério de escolha era por livros de estreia “com acentuado caráter de originalidade”.

                                                                 A  Manhã, 13 de outubro de 1943/Hemeroteca digital

A Fundação já tinha prestigiado as estreias de Rachel de Queiroz, Erico Verissimo, Jorge de Lima, Murilo Mendes, dentre outros. Mais à frente, na coluna “Livros do dia – dois minutos no país das letras”, entre várias pequenas notícias literárias, um destaque quase profético assinado por um desconhecido J.B.: “(…) A Fundação Graça Aranha concede o prêmio tão ambicionado à maior estreia feminina de todos os tempos na literatura brasileira. Clarice Lispector, autora de Perto do coração selvagem, com o seu livro belo, é laureada, e nunca houve tanta justiça na concessão de um prêmio literário”.

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