Matriosca: duas ou três palavras sobre um caderno de viagem

Postado por Elizama Almeida / 29 de junho de 2017 / 0 Comentários

Penworthy: caderneta magra, cabe na palma da mão, 17cm x 10,5cm e 58 páginas. Na capa em letra cursiva, e parece que com certo orgulho, consta o nome que assumiu depois de casada: Clarice Gurgel Valente. A partir de 23 de janeiro de 1943, Clarice Lispector assinaria assim, esposa integral do diplomata Maury Gurgel Valente que, naquele ano, fora designado para servir como vice-cônsul em Nápoles. A mulher vai cruzar oceanos justamente no meio da guerra para encontrá-lo na  Itália. A viagem dura de 19 de julho a 24 de agosto, isto é, mais de um mês em trânsito, em estado de viagem, de espera, de saudade, inquietação e ansiedade. Tania, minha irmãzinha, eu te amo.

É sua primeira viagem internacional, direto para o desconhecido. Desconhecidos os países, as pessoas, o estado civil, o futuro. Pensamentos em ebulição, pelos olhos tudo é novo, tudo é novo, tudo é –  o que passa pelo corpo que não é possível compartilhar com o outro? “A caderneta de viagem será para o solitário o que os outros são para o asceta numa comunidade”, ensina Foucault. Escreve-se, portanto, para aliviar o pensamento.

Vinda à luz em 2012 (antes permanecia sob cuidados do herdeiro principal), a caderneta de viagem é bastante singular diante dos documentos já conhecidos por pesquisadores, editores e leitores.

Penworthy sobrepõe tempos diversos. Sentada em algum lugar da Libéria, 31 de julho de 1944, já tarde da noite, Clarice descreve a experiência daquele dia em que passou nas vilas de negros ainda intocadas: “Com a jornalista Ana Kipper, o capitão David Crockett e Bill Young, fui às vilas de negros, Tallah, Kebbe, Sasstown”. Rememora o que fez, o que disseram, o que viu. A caderneta como plataforma que guarda as coisas do esquecimento.

 

Libéria, Fisherman’s Lake, 31 de julho de 1944

Com a jornalista Ana Kipper, of capitão David Crockett e Bill Young, fui às vilas de negros, Tallah, Kebbe, Sasstown. As negras de busto nu nas vilas onde os missionários não chegaram. Elas trabalham para os americanos e falam alguma coisa de inglês (na Monróvia há uns 24 ou 25 dialetos). Dizem de repente: hello! Adoram dar adeus. Vi uma mocinha de seios muito bonitos. Mas a maior parte delas, ainda jovens, tem seios grandes e murchos. São limpos e sadios. Só que algumas crianças têm umbigos tão grandes como laranjas. Um negro, a quem eu dei adeus e sorri mais demoradamente, de propósito, ficou encantado e pôs a mão no [rasurado]. As negras jovens pintam o rosto com traços de cor creme e o lábio inferior com uma tinta da cor de azinhavre. Uma delas pediu-me meus sapatos. Outra, a quem agradei o filhinho, disse: Baby nice, baby cry money. Um dos rapazes deu-lhe um níquel, ela disse: baby cry big money. Uma falou alguma coisa longa e complicada. Vi que era a meu respeito e ela ria (eles riem com grande facilidade, mas alguns são tristes e mesmo o riso deles é de humildade e fascinação.) Pergunto a um deles, que sabia inglês, o que ela dissera: ele tentou resumir, disse afinal: that you are fine, she likes you. Perguntaram sobre o meu lenço de cabeça. Eu tirei para ensinar a botar e quando eles viram meus cabelos ficaram sérios e atentos. (…)

 

Até que Clarice interrompe a escrita e volta (volta?). “A missionária está falando de algo com Ana Kipper” – o gerúndio indica que enquanto registrava a visita à vila, acontecia ali mesmo, em sua frente, episódio paralelo à narrativa e talvez relevante.

Esse retorno é de certa forma cruel. Como voltar, jantar, ir ao cinema e seguir? Como não virar do avesso? Cinema será sempre aborrecido, jantar qualquer coisa. Esse retorno-não retorno relembra a história da própria personagem Ana, do conto “Amor”. Como voltar para casa, para os filhos, para o marido, fazer o jantar, depois de ter visto um cego mascando chiclete? Como voltar a organizar o quarto, fazer faxina, após notar e comer a barata? Como ser feliz fantasiada de rosa no carnaval de Recife se a mãe desfalece?

Não volta.

Clarice naquela situação, para aquela vila de negros, seria apenas mais uma turista que deixaria algum dinheiro para a mãe da criança que chora por big money. Já aquele episódio para Clarice seria motor para a composição do conto “A menor mulher do mundo” (Laços de família, 1960 – “Neste instante, Pequena Flor coçou-se onde uma pessoa não se coça”), “África” (Fundo de gaveta, 1964) e “Corças negras” (Jornal do Brasil, 5.4.1969). Isto é, vinte anos passariam e o episódio de Fisherman’s Lake não deixaria de ecoar.

A distância de tempos, neste caso, de décadas, dá a justa medida para reunir um episódio biográfico a uma escrita poética que serve à expansão do texto ficcional. A biografia intimamente implicada na produção.

Penworthy não apenas se destaca dos demais documentos de arquivo, como também escapa às definições arquivísticas mais técnicas. Geralmente há cadernos de trabalho, como os do poeta mineiro Paulo Mendes Campos e o estudo da língua russa, e outros manuscritos ou datiloscritos com fins literários. A classificação normativa, no entanto, não enquadra exatamente a caderneta de viagem. É um documento pessoal? Sim, traz dados muito pontuais, instrutivos, contas, e endereços. É uma produção intelectual? Sim, traz trechos que seriam usados em romances, contos e crônicas. É uma agenda? Sim, traz datas, horários, telefones, compromissos.

Segundo Louys Hay, há dois tipos de cadernetas: os diários e os instrumentos de trabalho. Enquanto aqueles são uma tomada de notas cujo espaço referencial e temporalidade se definem pelo relógio e pelo calendário, estes últimos são dedicados quase exclusivamente a estudos e experimentações linguísticas, elaboração de frases, títulos, ensaios e relação de nomes próprios.

Ainda que no universo das palavras nenhuma classificação tenha valor absoluto, Penworthy tem atributos dos dois, mas é um terceiro tipo. Esta caderneta seria um composite,  gênero no qual se mesclam o efêmero e o essencial, os acontecimentos cotidianos e os projetos literários, fragmentos de formas ou ideias.

Há nesses escritos que ainda não passaram, e não passarão, pela faca só lâmina do outro – e esse outro pode ser tanto o leitor, o público, quanto o mercado -, há nesses gestos de mão dispêndios de energia que não correspondem a qualquer modelo apreendido. Pode ser um ganho para o campo dos estudos da literatura pensar esse material não do ponto de vista de certa curiosidade pela rasura ou ver que palavra terá omitido o autor – abordagem muito comum à crítica genética.

Pode ser um ganho para o campo dos estudos da literatura pensar que um caderno guarda as agitações do corpo.

E perguntar que linguagem é essa que serve tanto à autora quanto à mulher, à turista, à esposa de diplomata? Que linguagem é essa, única presença possível e familiar ante um mundo desconhecido – Libéria, Portugal, Itália? Quantas dobras a língua pode fazer a serviço de tal e tal situação? A coreografia vernacular em que na mesma página confluem a linguagem extremamente utilitária e a literária?

Mil dobras. Matriosca.

Lidar com esse tipo de escrita – a da escrita em cadernos – significa alçá-la à categoria de um texto que dialoga com experiências e acontecimentos sem recalcar o valor documental e o estatuto de uma literatura que aí se inscrevem.

É justamente nesse suporte de escrita, nessa magra caderneta, sem, à primeira vista, robusto teor literário e desencaixada de categorias arquivísticas existentes, que se flagra uma fundamental leitura dos deslocamentos não apenas geográficos, mas, sobretudo, dos deslocamentos literários e pessoais. 

 

A caderneta foi descrita e seu conteúdo está disponível para leitura aqui.

elizama

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