“Eu queria escrever como um pintor”

Postado por Victor Heringer / 6 de agosto de 2013 / 0 Comentários

Ser escritora não era a primeira opção para Clarice Lispector, por mais estranho que hoje isso nos pareça. Apesar de ter cursado Direito na Universidade do Brasil, colaborado em redações editoriais e traduzido romances, foi na escrita ficcional que ela se destacou.  Mas nem só de palavra vive o homem, e Clarice bem teve seu namoro com a pintura.

Não é de hoje que a dimensão plástica, de um modo geral, cruza os limites da palavra. Alguns dos grandes ícones da literatura, como Fiódor Dostoiévski, Edgar Allan Poe e Franz Kafka, além dos nacionais Monteiro Lobato, Rubem Braga, Erico Verissimo e Ferreira Gullar, encontraram prazer nas artes plásticas. Clarice Lispector também se aventurou por esse caminho, principalmente a partir da década de 1970.

O fascínio pela pintura e pela dinâmica que esse tipo de arte demanda se manifestou em personagens e histórias claricianas, sobretudo em Água viva, livro publicado em 1973, no qual o tema é abordado intensamente e de maneira experimental. Pintar e escrever estão em perspectivas diferentes de um mesmo plano. Há ali um jogo, do início ao fim, entre um eu e um tu, entre a tela e a página, entre a tinta e a letra, que desfaz a linearidade e a calmaria às quais leitores convencionais estão acostumados. Nem romance, nem poesia, “gênero não me pega mais”, diz o narrador de Água viva (mesmo que, para fins de catalogação bibliográfica, teve mesmo de ficar como “romance”).

Dentre os itens que compõem o Acervo Clarice Lispector, que se encontra no IMS desde 2004, estão dois quadros pintados pela autora – dos aproximadamente 20 de que se tem notícia: Interior da gruta e o outro sem título.

Embora não demonstrando tanta habilidade para as artes plásticas quanto notoriamente tinha para a escrita, Clarice, em Interior da gruta, cria uma sensação que se assemelha àquela causada por suas histórias: desconforto. Se à primeira olhada o quadro pode causar um efeito de estranhamento, na segunda o observador tende a ser tomado por uma espécie de hipnose.

O quadro, sobre o qual estão pintadas em guache verticalmente as cores marrom, verde, vermelho e amarelo, coloca seu espectador num estado de quase intromissão. A imagem pretende ser – e estar – “atrás do pensamento”, título, aliás, que seria dado a Água viva. Atrás do pensamento, perto do não racional, do selvagem, do primeiro impulso, da adivinhação.

O narrador do romance diz sobre as grutas:

Quero pôr em palavras mas sem descrição a existência da gruta que faz algum tempo pintei – e não sei como. Só repetindo seu doce horror, caverna de terror e das maravilhas, lugar de almas aflitas, inverno e inferno, substrato imprevisível do mal que está dentro de uma terra que não é fértil. Chamo a gruta pelo seu nome e ela passa a viver com seu miasma. Tenho medo então de mim que sei pintar o horror, eu, bicho de cavernas ecoantes que sou, e sufoco porque sou palavra e também o seu eco.

No segundo quadro, a mesma dinâmica: profusão de linhas, sobreposições de verde, rosa e branco, traços na vertical. Um emaranhado, aparentemente, apenas ímpeto, saltos sem descanso. Apesar da simplicidade do material – guache sobre compensado e óleo sobre tela, respectivamente – e da rusticidade do traço, permanece o estranhamento similar ao da escrita.

As telas e o livro Água viva parecem ter o mesmo propósito: descobrir o “instante-já”, o it, escapulindo das possíveis definições. “Minha pintura”, diz o narrador, “não tem palavras”. A intenção é apenas escrever e desenhar como um improviso de jazz.

victorheringer

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