Conversa com José Castello

2 de Maio de 2018 / 0 Comentários

O crítico José Castello vai ministrar novas aulas do Grupo Clarice, dedicado à leitura e estudos da obra de Clarice Lispector. Entre os romances discutidos estão Água Viva e A paixão segundo GH, além dos textos recentemente reunidos na edição Contos completos e das crônicas que compõem o livro A descoberta do mundo. Os próximos encontros acontecem nos dias 11 e 12 de maio e 20 e 21 de julho no Instituto Estação das Letras (IEL).  Segue abaixo uma breve conversa por email com José Castello:

Que tipo de público é atraído pelos textos de Clarice?

O que mais me impressiona nos grupos de Clarice é o predomínio, quase absoluto, dos leitores leigos. Claro, escritores e professores de literatura também costumam participar. Mas a maioria dos alunos é de advogados, psicólogos, jornalistas, médicos, psicanalistas etc. Já tive em meus grupos até a participação de físicos, astrônomos, bailarinos, arquitetos e matemáticos. O que isso quer dizer? Embora tenha sido uma mulher muito culta, Clarice trabalha em seus livros, sobretudo, com a existência. Ela mesma não gostava de ser chamada de escritora, considerava-se apenas uma mulher comum. Essa intensa disponibilidade para a vida e para o real aparece com muita força em seus escritos. E atrai todo tipo de leitores.

Como você vê a recepção da obra de Clarice no Brasil e o recente sucesso da escritora nos Estados Unidos e Europa?

Creio que ainda temos no Brasil, em geral, uma visão bastante deformada da obra e da figura de Clarice. Pelos preconceitos (por ela ter sido uma mulher muito bonita, que talvez devesse estar na televisão, ou nos salões de beleza, e não na literatura), pela preguiça intelectual (muitos nem chegam a lê-la para valer e logo fecham uma imagem rápida a seu respeito), até mesmo por um certo desprezo que a literatura brasileira ainda sofre por parte dos próprios leitores brasileiros. Alguns simplesmente dizem que Clarice não fez literatura, mas filosofia, ou foi apenas uma autora de aforismos, costurados apressadamente, ou até que foi uma bruxa, e não uma escritora. Há mesmo quem a veja como uma simples autora de frases de efeito e pensamentos genéricos, à moda de uma Madame de Sévigné. Mas Clarice não é só uma escritora, é uma escritora incomum. Penso que ela está no mesmo nível de um Kafka, ou de um Pessoa. Agora, que o mercado de traduções se expandiu, é natural que o mundo a descubra. Ainda lentamente, olhando-a muitas vezes com grande suspeita ou desconfiança, mas a descubra.

O que mais o seduz na obra da escritora?

A mim, em particular, emociona sua imensa coragem. Clarice escreve exatamente o que pensa. Por isso, muitas vezes, seus escritos assustam: porque eles nos trazem uma visão frontal e sem enfeites ou ornamentos da realidade. A leitura de Clarice – se a lemos para valer, sem preconceitos e sem defesas – sempre nos abala. Quando li pela primeira vez, aos 18 anos, A paixão segundo GH, simplesmente adoeci. Tive uma febre muito alta e uma fraqueza imensa, que nenhum exame médico conseguia explicar. Um dia, um velho médico da família, depois de me examinar, declarou: “Isso é apenas uma paixonite”. Que grande crítico literário foi esse médico! Mesmo sem saber disso, ele simplesmente leu A Paixão segundo GH em meu corpo.

Qual é a atualidade de Clarice?

Vivemos tempos duros e dogmáticos. O tempo das crenças e das convicções, dominado pelo pragmatismo e pela idéia dos resultados práticos. Clarice caminha na contramão de tudo isso. Tinha um espírito libertário, não se prendia a nada, e não aceitava que nada a prendesse. Foi ainda uma mulher muito tocada pelos problemas concretos de seu tempo. A devastação provocada pela fome, por exemplo, aparece em muitos de seus escritos. Para os que ainda insistem em vê-la como uma mulher frívola, uma dondoca – e quanta gente ainda pensa assim! –, basta lembrar, por exemplo, que, em 1968, Clarice estava na primeira fila da histórica Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro. A vida e o presente são seus grandes temas. Por isso, eu penso, sua literatura nos atrai tanto.

Foto: Miller of Washington/ Arquivo Clarice Lispector/ IMS

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