Cazuza ao som de Lispector – por Rafael Julião

Postado por Bruno Cosentino Vianna Guimarães / 24 de outubro de 2018 / 0 Comentários

“Eu queria anunciar aqui o seguinte: a pessoa que eu mais amo na minha vida chama-se Clarice Lispector”. Essa afirmação foi feita por Cazuza, já um pouco tocado pela bebida, durante sua participação em um show de Angela Ro Ro no Morro da Urca, no Rio de Janeiro, em 1988.[1] Logo em seguida, o artista disse à plateia que queria cantar uma “poesia” de Clarice que ele havia musicado. A tal poesia era, na verdade, um trecho de Água Viva, de 1973, devidamente adaptado para se tornar letra da canção “Que o Deus venha”.[2]

O letrista também se inspirou em Clarice para compor “A via-crúcis do corpo” [3], desta vez pautado no livro homônimo, publicado em 1974. Para além dessas relações mais diretas, é possível encontrar ecos clariceanos em várias imagens de Cazuza, bem como na recorrência do tema da liberdade, que não raro se projeta em um processo de aprendizagem pelo amor e pelo prazer (tal como em Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de 1969), na verdade, construído por meio de uma espécie de “desaprendizagem” dos valores sociais estabelecidos.

Vale também pensar a aproximação do compositor e da escritora a partir da linha temporal que os liga. A obra de Clarice Lispector insere-se no intervalo entre as décadas de 1940 (a partir de Perto do coração selvagem, de 1943) e de 1970 (com a morte da autora em 1977). Veja-se que Clarice atravessa um momento fundamental da história do século XX, em um período que deixa entrever a ponte que leva das discussões existencialistas e das discussões de gênero elaboradas na primeira metade do século XX (com destaque para as respectivas obras de Sartre e de Simone de Beauvoir) aos movimentos libertários dos anos 1960 e 1970.

Assim, as premissas existencialistas de que a existência precede à essência e de que os seres humanos são “condenados” a serem livres, bem como o entendimento de que os papéis sociais vinculados ao gênero (mas também à classe, à raça e à orientação sexual) são socialmente construídos, permitiram novos olhares sobre a questão da liberdade. Nessa esteira, a contracultura dos anos 1960 e 1970 propôs-se a contestar os valores da sociedade patriarcal burguesa, recusando o establishment e apontando para novas formas de experiência. Nesse conjunto, devemos compreender não apenas os movimentos hippie e punk, e o Maio de 1968, mas também todos os movimentos identitários que ganharam força naquele momento. Além disso, precisamos estar atentos à emergência do rock’n’roll e de suas derivações, que funcionaram como a trilha sonora das contestações da juventude da época.  

Veja-se que Cazuza nasceu em 1958 e, portanto, viveu sua adolescência durante os anos de 1970, já sob o influxo desses movimentos contraculturais. De algum modo, sua obra dos anos 1980 revela, de modo peculiar, os pontos de interseção entre esse universo e o de Clarice Lispector, lançando luz também sobre o percurso histórico que envolve todas essas expressões. Além disso, vale considerar o impacto da AIDS nos anos 1980 (e dos casos célebres de overdose nos anos 1970) em relação a esses movimentos libertários, o que serviu de matéria prima para a canção “Ideologia”, de Cazuza, lançada em álbum homônimo de 1988, mesmo ano do show onde o artista afirmou seu amor por Clarice e cantou sua versão de “Que o Deus venha”.

Segundo posterior relato de Frejat, Cazuza havia lhe dado o esboço da canção para que o parceiro fizesse ajustes, provocando surpresa ao explicar que se tratava de um texto da escritora: “não dava pra imaginar que era um texto de Clarice, de tão parecida que a letra estava com o jeito dele escrever”. Para compreendermos a semelhança, vale citar o fragmento original:

Sou inquieta, áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que eu não sei usar amor. Às vezes me arranha como se fossem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e no entanto eu continuo inquieta, é porque eu preciso que o Deus venha.  Venha antes que seja tarde demais. Corro perigo como toda pessoa que vive e a única coisa que me espera é exatamente o inesperado. Mas eu sei que vou ter paz antes da morte e que experimentarei um dia o delicado da vida. Perceberei – assim como se come e se vive o gosto da comida. (LISPECTOR, 1998, p.51)

A adaptação de Cazuza, de modo geral, limita-se a passar o eu-lírico para o masculino e fazer o recorte dos versos, aproveitando e ressaltando o caráter poético (e musical) do fragmento narrativo de Clarice Lispector, que sofre apenas sutis modificações. Em relação ao conteúdo, é possível identificar alguns tons do sentimento de inquietude, que se manifestam de maneiras comparáveis no trabalho do compositor e da escritora.

As personagens clariceanas se percebem diante de três grandes instâncias de aprisionamento, que podem ser esquematizadas do seguinte modo: a condição social (onde pesam especialmente as opressões de gênero), a condição humana (onde se problematiza a falta de controle sobre o próprio destino) e, por fim, a linguagem (que tenta apreender e dar sentido à realidade). O embate entre esse mundo interior convulso e essas limitações fornece matéria para grande parte da obra da escritora.

Em Perto do coração selvagem (1943), por exemplo, a personagem Joana afirma: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.”[4] Esse célebre fragmento ilustra não apenas a centralidade desse tema na obra de Clarice, mas o próprio embate com a linguagem, isto é, com a impossibilidade de dar nomes precisos às dimensões do mundo subjetivo. No mesmo livro, a liberdade, quando não aparece como desejo extremo e inenarrável, fruto da angústia das limitações da condição humana e de sua linguagem também limitada (e limitadora), aparece como opção heroica – “Liberdade? É o meu último refúgio, forcei-me à liberdade e aguento-a não como um dom mas com heroísmo: sou heroicamente livre. E quero o fluxo”.[5] Nesse sentido, “querer o fluxo” corresponderia a negar os enquadramentos existenciais, sociais e expressionais. A opção de ser livre é heroica na medida em que acarreta todo o ônus do gauchismo, da dor do não-pertencimento, da luta contra um sistema pré-estabelecido já viciado no disfarce.

O próprio título do livro, Perto do coração selvagem – cuja epígrafe revela a referência a James Joyce, que fala sobre alguém que estava só, “perto do selvagem coração da vida” – já prenuncia que a narrativa estará centrada nesse mundo subjetivo, indomesticável e inquieto. Vale pontuar que universo semelhante pode ser encontrado em composições icônicas de Cazuza, como nas letras de “Down em mim” (“Eu não sei o que meu corpo abriga/ nessas noites quentes de verão/ e nem me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago de razão”) e de “Só as mães são felizes”, onde justamente a figura da mãe se desenha em negativo em relação às criaturas que habitam “o lado escuro da vida” (“nunca viu Lou Reed/ walking on the wild side” ou “você nunca ouviu falar de maldição/ nunca viu um milagre/ nunca chorou sozinha num banheiro sujo/ nem nunca quis ver a face de Deus”).

Segundo Benedito Nunes, mais do que uma preocupação em filosofar, estabelecer ou discutir doutrinas, há na obra da escritora “uma intuição sensível de escrever sobre a ameaça da angústia que nos acolhe, quando se anseia viver sob o signo da busca da liberdade”.[6] Sem dúvidas, essa angústia e essa inquietude, vinculadas, sobretudo, ao desejo de liberdade, são pontos que unem profundamente as obras de Clarice e de Cazuza.

Como já foi dito, Cazuza também se inspirou diretamente em Clarice Lispector para escrever “A via-crúcis do corpo”, em referência ao livro de contos homônimo da escritora, de 1974. A composição visita o universo de Clarice, em seu caráter geral, mas também por meio de referências a essa obra específica, como nos versos: “Só não volta a infância perdida/ só não nos livramos de morrer à toa”, “A dor pode ser disfarçada/ mas a via-crúcis do corpo/ já foi há muito traçada” e “Será que eu tenho um destino?/  Não quero ter a vida pronta/ como um plano de trabalho/ como um sorvete de menta”.

O eu-lírico da canção, espelhando a narradora incompleta e inquieta, pergunta-se sobre a dor da existência – a via-crúcis do corpo e da alma – e a dúvida sobre o destino humano, na qual a liberdade é, a um só tempo, dádiva e condenação. Note-se que esses versos também reverberam o livro Água viva, que deu origem a “Que o Deus venha”, onde a figura de Deus (“o Deus”, delimitado pelo artigo definido) revela o princípio e o fim de todas as coisas, atribuindo sentido à vida e à morte, trazendo plenitude e quietude para os sujeitos, mas também se oferecendo como interlocutor dos questionamentos sobre a existência. Tal como em “Só as mães são felizes”, são justamente as criaturas do lado escuro da vida que aspiram ver a face de Deus.

O fragmento específico que dá origem a “Que o Deus venha” toca em um ponto de constante inquietude na obra de Cazuza: a incapacidade de amar, que se apresenta como o grande pathos do compositor. A recorrente afirmação do não saber amar (em tensão com seu intenso desejo de transitividade amorosa) atravessa várias de suas composições e se faz notória nos versos “embora amor dentro de mim eu tenha/ só que eu não sei usar amor”.

Formulações semelhantes aparecem nas letras de “Malandragem” (“eu sou poeta e não aprendi a amar”), “Rock’n’geral” (“ou de um coração meio surdo que não sabe amar”), (“não amo ninguém e é só amor que eu respiro”) “Não amo ninguém”, “Filho único” (“estou na mais completa solidão/ do ser que é amado e não ama”), “Nunca sofri por amor” (“será que nunca amei de verdade/ ou o verdadeiro amor é assim”), “Carente profissional” (“levando em frente/ um coração deprimente/ viciado em amar errado/ crente que o que ele sente/ é sagrado/ e é tudo piada”) e “Fracasso” (“mas eu tenho a impressão/ que todos nós somos fracassados/ eu, por exemplo: não amo…”).

De modo mais amplo, Água Viva fala do mistério do instante que, a um só tempo, é vida e morte – criação e destruição. O livro, que começa na “aleluia” de um parto, no “uivo humano da dor de separação”, mas que é “grito de felicidade diabólica”, fala da explosão do nascimento, da transição, da existência que se faz no limite entre a dor e a alegria, sempre avançando para o próximo instante que provoca medo e fascínio, pois se trata do desconhecido. Os versos adaptados de Cazuza concentram esses sentidos ao apontar o perigo da vida, o sempre inesperado.

Vale notar também que há várias palavras que se repetem neste livro, bem como em toda a obra da escritora: “grita”, “arde”, “pulsa”, “vibra”, “flui”. Como já foi dito, essas palavras estão diretamente ligadas a um espaço interior indomesticável, que é aprisionado pelos limites da condição humana, pelas molduras sociais que se lhe impõe e pelo discurso. Esse mesmo conjunto de palavras (ou ao menos seus sentidos) atravessam, em grande medida, as composições de Cazuza. E, o “objeto gritante” que se narra em Água viva também se relaciona intimamente ao universo rock, de onde o artista extrai a natureza de seu canto e de seu grito.

Por fim, vale pensar que “o lado escuro da vida”, ou aquilo que se encontra “perto do coração selvagem”, não teria tanta força se não colocasse em tensão o sagrado e o profano, o grito e o silêncio, o fluxo e o limite, a transgressão e a redenção, o roubo e a rosa. E assim, a letra que começa com o sujeito “áspero”, “inquieto” e “desesperançado” projeta a esperança de ter paz antes da morte e, mais que isso, um fundo desejo de delicadeza. E é nesse espaço de conflito que se iluminam, mutuamente, as obras de Cazuza e de Clarice Lispector.

[1] O registro do áudio do show de Angela, no qual Cazuza faz essa declaração e canta “Que Deus venha” está disponível em www.youtube.com/watch?v=X3JzJHJg758. Acessado em 07/2018.
[2] “Que o Deus venha” (Frejat/ Cazuza/ Clarice Lispector). Gravada originalmente pelo Barão Vermelho no álbum Declare Guerra (1986) e regravada por Cássia Eller em Cássia Eller (1990).  A única gravação com a voz de Cazuza é justamente o registro informal do áudio desse show de Angela Ro Ro.
[3] “A via-crúcis do corpo” (Cazuza). Texto não musicado.
[4] In: Perto do Coração Selvagem (LISPECTOR, 1998:70)
[5] In: Água Viva (LISPECTOR, 1998, p.16)
[6] NUNES apud HELENA, 2006:38.

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