As três mulheres de Clarice

12 de junho de 2018 / 0 Comentários

Acaba de sair um novo livro de Clarice Lispector: Correio para mulheres. A coletânea, organizada por Aparecida Maria Nunes, reúne textos voltados para o público feminino e escritos em três momentos distintos da carreira da escritora.

Na primeira ocasião, entre maio e setembro de 1952, Clarice escreve a coluna “Entre mulheres”, do jornal Comício, fundado pelo amigo Rubem Braga, onde publica sob o pseudônimo de Tereza Quadros. Alguns anos mais tarde, em 1959, assume “Feira de utilidades”, no jornal Correio da Manhã, agora com o nome de Helen Palmer. Por fim, durante os dois anos seguintes, a coluna “Nossa conversa”, do Diário da Noite, desta vez como ghost-writer da atriz Ilka Soares, de quem se tornou amiga e, segundo  Alberto Dines, editor da coluna, um “autêntico heterônimo”.

Clarice se desdobrou em três nomes de mulher com o intuito de resguardar sua produção literária, publicada em livros com seu verdadeiro nome, mas também na imprensa, em revistas como Senhor e no Jornal do Brasil, alcançando neste último grande popularidade junto ao público.

No espaço despretensioso das colunas femininas — e com a liberdade garantida pelo anonimato —, Clarice dá conselhos de etiqueta, moda, dieta e criação dos filhos, sem, no entanto, conseguir desaparecer por completo; percebe-se, muitas vezes, ali, o estilo, o senso de humor clariciano, além da discussão de temas que serão desenvolvidos em seus romances.

A exortação da liberação dos costumes das mulheres em meio às injunções atribuídas ao sexo feminino permeou vários textos. Em “Driblando a moda”, por exemplo, recomenda: “(…) o roxo é a cor que vem. Em algumas de vocês, o roxo irá tão bem como uma luva de luxo. Em outras, apesar de estar na moda, talvez dê um ar de tristeza e viuvez. Lembre-se: moda é moda, mas quem manda mesmo é você”. Em outro, “Quem é que você deve imitar?”, é mais direta: “A questão está toda aí: você deve imitar você mesma”.

A nova edição é resultado da fusão de dois livros publicados anteriormente: Correio feminino e Só para mulheres. O jornalista Alberto Dines, morto recentemente, é autor da apresentação, em que recorda o esmero com que a amiga entregava suas páginas montadas com imagens recortadas de revistas francesas e os diferentes textos e títulos datilografados e dispostos do modo como deveriam aparecer: “Não era apenas uma colunista diligente, atenta à sua leitora, mas uma editora caprichosa”, observa o prefaciador.

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