“As mulheres são selvagens” – por Bruno Cosentino

13 de Maio de 2019 / 0 Comentários

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A revista “Cultura|s”, do jornal La Vanguardia, festejou, recentemente, a edição em espanhol do livro Todos los cuentos, de Clarice Lispector. A tradução é compartilhada por Cristina Peri Rossi, Elena Losada, Juan García Gayo, Marcelo Cohen e Mario Morales, e tem prefácio de Benjamin Moser, também autor de ¿Por qué este mundo?, biografia de Clarice publicada pela mesma editora, Siruela, em 2017.

No artigo “Toda la vida de uma mujer”, assinado por Laura Freixas, a escritora brasileira é aclamada como um mito, conhecida no Brasil somente pelo primeiro nome. Clarice, segundo a jornalista, além de gozar de prestígio acadêmico, é popular, e suas obras inspiram canções, séries de televisão, peças de teatro e coreografias. A consagração internacional teria vindo, no entanto, postumamente, quando a escritora e feminista francesa Hélène Cixous elevou a brasileira a máximo expoente da escrita feminina e despertou o interesse de editores europeus e universidades norte-americanas.

A jornalista assinala ainda a capacidade da escritora brasileira “mergulhar com a profundidade que até agora ninguém conseguiu na exploração da identidade da mulher”. Donas de casa, esposas burguesas, matriarcas rodeadas pelo clã familiar; para ela, as personagens femininas de Clarice, aparentemente convencionais e pouco interessantes, guardam, por sob a superfície, o germe do inconformismo — “as mulheres são selvagens”, afirma. Ainda são “alegres, livres, poderosas, felizes em sua simbiose emocional e sensorial com a natureza”.

Esse modo feminino de estar no mundo pode ser percebido, segundo a jornalista, desde o primeiro conto de Clarice, “Triunfo”, publicado em 1940, na revista Pan.

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Vale a pena ver com mais cuidado esse conto.

Luísa, a personagem principal, desperta em sua casa sob um silêncio inabitual, interrompido pela pancada alta e sonora do relógio, que soa como prenúncio do que virá.

Desde o início do conto, o ritmo e a escolha das palavras descrevem o despertar de Luísa em comunhão erótica com o dia nascente. A começar pela imagem da “mancha de sol”, que avança “aos poucos pela relva do jardim” e encontra uma abertura na janela — “Penetra.”, escreve. O verbo, usado no tempo presente (que coincide com o imperativo da segunda pessoa, tu), soa potente, viril, sozinho na oração. A “relva” remete à imagem dos pelos pubianos. E quando a claridade do sol alcança o quarto, a personagem, ainda deitada na cama, “um braço cá, outro lá, crucificada pela lassidão”, franze as sobrancelhas e faz um trejeito com a boca, evocando o prazer orgástico. O dia “vai-lhe entrando pelo corpo”.

Luísa, porém, percebia uma ausência: “… e aqueles ruídos familiares de toda manhã?”, pergunta-se. Pois é no silenciar destes que surgem novos rumores. Ouve “passos longínquos, miúdos e apressados”, “folhas secas pisadas”; pensa em uma criança correndo na estrada. A essa altura, ainda se encontra no limiar entre o sono e a vigília, estado de consciência chamado de hipnagogia, quando os sentidos estão aguçados e receptivos e podemos ser acometidos por visões oníricas iluminadoras.

De repente, de novo o silêncio, “absoluto, como de morte”.

Ficamos sabendo que o marido a abandonara na tarde anterior, após uma briga, mais uma, às quais Luísa sempre reagira amedrontada. Absorta na gravidade da casa vazia, vai então até à mesa de Jorge, com a esperança de achar algum bilhete que lhe dissesse algo como: “Apesar de tudo, eu te amo. Volto amanhã”. Em vez disso, encontra uma folha de papel na qual ele confessava sentir-se medíocre por não conseguir fixar a atenção no livro que escrevia. Aqui, acontece um ato falho revelador. Luísa identifica-se com Jorge e toma para si o sentimento dele — “E ele sabia-o então?”, pergunta-se. Era o que também “ela sempre sentira, vagamente apenas: mediocridade”.

Antes disso, acompanhamos uma discussão do casal, recordada por Luísa. Ele a acusa: “Você, você me prende, me aniquila! Guarde seu amor, dê-o a quem quiser, a quem não tiver o que fazer! Entende? Sim! Desde que a conheço nada mais produzo! Sinto-me acorrentado. Acorrentado a seus cuidados, a suas carícias, ao seu zelo excessivo, a você mesma! Abomino-a!”.

Em brigas anteriores, ela, normalmente “tão cheia de dignidade, tão irônica e segura de si”, suplicou-lhe, pálida, que não a abandonasse. Mas, desta vez, conforme ele, Luísa interrompera-o “no momento em que uma nova ideia brotava, luminosa, em seu cérebro. Cortara-lhe a inspiração no instante exato em que ela nascia, com uma frase tola sobre o tempo, e terminando com um detestável: ‘não é, querido?’”

A cena revela uma incompatibilidade comum entre homens e mulheres. Segundo Simone de Beauvoir, o homem deseja alcançar a transcendência, e, para isso, nascido, é claro, da mulher, busca desprender-se dela para seguir adiante a realização de um projeto. A mulher, por sua vez, está vinculada à natureza; é o repuxo que atrai o homem para a imanência, para a terra. Assim, é motivo da maior indignação para Jorge o amor frugal e devotado de Luísa; ele diz sentir-se “acorrentado a seus cuidados, a suas carícias, ao seu zelo excessivo”.

Ainda para Simone de Beauvoir, a mulher-mãe tem “um rosto de trevas: ela é o caos de que tudo saiu e ao qual tudo deve voltar um dia; ela é o Nada. (…) Ele aspira ao céu, à luz, aos picos ensolarados, ao frio puro e cristalino do azul; e, a seus pés, há um abismo úmido e quente, obscuro, pronto para abocanhá-lo; numerosas lendas mostram-nos o herói que se perde para sempre recaindo nas trevas maternas: caverna, abismo, inferno”.

Outra divergência que aparece com destaque no texto é a inclinação do homem à razão, contraposta à sensualidade da mulher. “A mulher é mais sensual do que o homem”, afirma Kierkegaard. A partir de tal raciocínio, seria possível pensar que o ciclo menstrual (e seus possíveis desdobramentos: a gravidez, o parto), em concerto com os movimentos da lua e das marés, é, por si só, manifestação evidente da mulher como parte sensível de uma harmonia cósmica.

É também nesse sentido que Hélène Cixous, citada no artigo da revista “Cultura|s”, observa a incidência, na obra de Clarice, de personagens que apresentam problemas de visão. Para ela, esse aspecto indica uma forma de aproximação com o mundo que não passa pelo distanciamento racional, mas pela fusão emocional e sensorial. Cabe lembrar que a visão, desde antes de Aristóteles — ainda que com este, na Metafísica, tenha sido motivo de detida reflexão —, é um sentido que está tradicionalmente associado à razão.

Há, portanto, um elogio da sensualidade que perpassa toda a narrativa.

Vale a pena repetir que o motivo da briga que culminou com a separação do casal foi “uma frase tola sobre o tempo” dita por Luísa. E que ela cometera a imprudência de interromper Jorge justo “no momento em que uma nova ideia brotava, luminosa, em seu cérebro”. Antes, a narradora descreve a imagem de uma cena do casal muitas vezes repetida: “Ela, calada, defronte dele. Ele, o intelectual fino e superior”.

Encontramos ainda outros indícios dessa valorização ao longo do texto. Quando Luísa se dá conta de que Jorge havia partido, passa a mão pela testa a fim de “afastar os pensamentos”. Em outro momento, lemos: “Pareceu-lhe ouvir seu riso irônico, citando Schopenhauer, Platão, que pensaram e pensaram…”.  O ato de pensar, que ecoa aqui de forma um tanto irônica — e que está também espelhado em palavras como “idéia”, “cérebro”, “pensamentos” e nos nomes de filósofos —, soa em flagrante oposição à falta de sensibilidade de Jorge, incapaz de acolher o gesto amoroso da mulher sem pensar para além de seus interesses egoístas.

Tal perspectiva aparece exemplarmente no papel reservado à intuição. A intuição — entendida como sabedoria do corpo sobre a qual não se tem explicação — é o motor principal das ações de Luísa e a conduzirá ao êxtase erótico no desfecho do conto. A intuição é tema de outros textos de Clarice, sendo parte, inclusive, de seu processo criativo. Em uma de suas crônicas (“Forma e conteúdo”, Todas crônicas, p. 269), registra: “Só a intuição toca na verdade sem precisar nem de conteúdo nem de forma. A intuição é a funda reflexão inconsciente que prescinde de forma enquanto ela própria, antes de subir à tona, se trabalha”.

Assim, desde o despertar, tocada pelo sol e tomada pelos ruídos da rua, Luísa entrega-se sinestesicamente aos estímulos que estão a seu redor. À falta do marido, chora. Depois (e aqui as frases curtas acompanham a respiração ofegante da personagem), “vai até a pia e molha o rosto. Sensação de frescura, desafogo. Está despertando. Anima-se. Trança os cabelos, prende-os para cima. Esfrega o rosto com sabão, até sentir a pele esticada, brilhante”. Seus gestos são impetuosos, assim como o movimento da natureza e das coisas: “abre as janelas de uma vez”; “o ar novo entra rápido”; “o relógio bate mais vigorosamente”.

Luísa passa então a perceber com frescor renovado o ambiente íntimo da casa, que, antes, com a presença de Jorge, parecia obnubilado: “Sempre vivera ali com ele. Ele era tudo. Só existia ele. Ele tinha ido embora. E as coisas não estavam de todo destituídas de encanto. Tinham vida própria”.

Deixando-se levar por um arrebatamento de origem desconhecida, “como se temesse pensar” (de novo o mal do “pensamento”), Luísa pega algumas peças de roupa e se põe a lavá-las no grande tanque no fundo do quintal. A descrição mais parece a de um ato sexual: “Arregaçou as mangas e as calças do pijama e começou a esfregá-las com sabão. Assim inclinada, movendo os braços com veemência, o lábio inferior mordido no esforço, o sangue pulsando-lhe forte no corpo, surpreendeu a si mesma”.

Terminada a tarefa, após um breve intervalo, uma nova onda leva Luísa enfim ao clímax:

“Olhou a torneira grande, jorrando água límpida. Sentia um calor… Subitamente surgiu-lhe uma ideia. Tirou a roupa, abriu a torneira até o fim, e a água gelada correu-lhe pelo corpo, arrancando-lhe um grito de frio. Aquele banho improvisado fazia-a rir de prazer”.

Importante notar aqui que a “ideia” que surge a ela é de natureza diferente da masculina; é uma ideia-ação, provocada por e desencadeadora de um gesto consequente.

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A jornalista de La Vanguardia ressalta a importância da voz feminina de Clarice num mundo em que as mulheres são habitualmente definidas pelos homens: “políticos, teólogos, cientistas, poetas”, lista Laura Freixas. E é justamente nesse mundo de papéis e tarefas definidas pela autoridade masculina que a escrita clariciana engendra uma possibilidade de ruptura. Curioso observar, por exemplo, que a tarefa mais caricata de uma dona de casa — lavar roupas no tanque — venha a ser decisiva para experiência extática que conduzirá a personagem à emancipação em relação ao marido — o triunfo de Luísa. Pois o medo de ser abandonada é nota reiterada no decorrer da narrativa: “Se ele for embora, eu morro, eu morro”; ou “Como viveria agora? (…) Repetia, repetia sempre: e agora?”.

Se não se pode dizer que Clarice tenha sido uma feminista stricto sensu, a autora, em suas narrativas, traz a primeiro plano mulheres comuns, que vivem a tensão entre o jugo e a autonomia em uma sociedade cujas leis são criadas predominantemente por homens. Na aparente fragilidade das personagens femininas, dá a ver a força de quem conhece as coisas pelos sentidos, de perto, por dentro.

Essa força irrompe de forma inusitada no desfecho do conto. A liberdade conquistada por Luísa não lhe inspira, como seria fácil supor, a autonomia ou o desejo de viver só (ainda que agora fosse capaz), mas sim o oposto, a sensação serena e confiante de que Jorge voltaria: “Um morno raio de sol envolveu-a. Riu. Ele voltaria, porque ela era mais forte”. Assim termina “Triunfo”, primeiro passo de uma estreante.

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