Rio de Clarice – por Mànya Millen

18 de Janeiro de 2019 / 0 Comentários

Se a leitura da autora de obras-primas como Laços de família, A maçã no escuro e A paixão segundo G.H. convida ao mergulho num mundo circunspecto, por vezes sombrio, a visão da escritora que emerge de O Rio de Clarice, passeio afetivo pela cidade, de Teresa Montero, é definitivamente solar. Nas páginas do livro, lançado pela Editora Autêntica, o prazer de Clarice Lispector em flanar pelas ruas, florestas, parques e praias do Rio de Janeiro, onde chegou em 1935, aos 15 anos, fica evidente. Elaborada a partir dos passeios que Teresa promove desde 2008 pelos recantos preferidos da escritora na metrópole, a obra vai além, e oferece uma visão mais detalhada de bairros, ruas e monumentos. Entrelaça citações, depoimentos e histórias com mapas (com QR Code), imagens da época e outras feitas especialmente para a publicação pelo fotógrafo Daniel Ramalho.

A ideia de uma Clarice mais exuberante do que a versão introspectiva cristalizada publicamente ao longo dos anos é sugerida já no tom vermelho escolhido para cobrir a foto da capa, na qual a escritora curte a praia na década de 60, com pose de diva, ao lado dos filhos. Está também nos amarelos e laranjas vibrantes de uma pintura assinada pela própria Clarice (Explosão, de 1975), selecionada para ilustrar o verso da capa.

Explosão, de 1975. Pintura de Clarice Lispector. Foto: Arquivo Clarice Lispector/ Fundação Casa de Rui Barbosa.

“Um guia tem mais compromisso com horário, o dia que abre, que fecha. O passeio afetivo é muito mais um flanar pela cidade, a liberdade de passear a pé; então sempre achei que o livro tinha que ser algo por aí”, conta a editora Maria Amélia Mello, da Autêntica. “A ideia era contar um pouco a história dos bairros, principalmente o Leme, onde ela morou a maior parte da vida, e não simplesmente pontuar o que tem em cada lugar para você olhar”.

O Leme, que Clarice dizia ser a “minha terra”– ela chegou lá em 1959 com os dois filhos, Pedro e Paulo, já separada do marido Maury Gurgel Valente, e permaneceu até sua morte, em 1977 – ganhou o maior e merecido espaço. Desde 2016 a escritora, com seu cão Ulisses, está imortalizada no bairro numa estátua criada por Edgar Duvivier. A campanha pela instalação do monumento, que virou ponto turístico imediatamente, teve Teresa como uma espécie de madrinha. No livro, tanto o texto como as fotos daqueles tempos, a maioria cedida pelo Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa (que, assim como o Instituto Moreira Salles, guarda parte do acervo da escritora), mostram uma Clarice que gostava de circular pela área, ir à feira, conversar com vizinhos, comprar cigarros, pilhas ou refrigerante no botequim em frente ao prédio.

Clarice sorri para o filho Paulo Gurgel Valente em frente à quitanda na rua Gustavo Sampaio, esquina com a rua Anchieta, no Leme. Década de 1960. Foto: Arquivo Clarice Lispector/ Fundação Casa de Rui Barbosa.

“O livro revela um outro lado dela. Por mais que Clarice fosse introspectiva, que não gostasse muito de fazer social, ela passeava pela cidade”, conta Teresa, autora de uma biografia da escritora (Eu sou uma pergunta, editora Rocco, 1999). “Quando comecei a pesquisar apareciam sempre as reportagens falando sobre Clarice fechada em seu apartamento, pouco disponível etc. A imagem de reclusa se cristalizou, e eu me perguntava se era mesmo assim”.

Algumas histórias contadas no livro comprovam a faceta mais brincalhona da escritora. Uma das amigas de Clarice, a artista plástica Maria Bonomi, lembra que, quando vinha ao Rio, elas batiam ponto no restaurante La Fiorentina, no Leme, a qualquer hora do dia ou da noite para conversar. Quando se sentiam incomodadas pela aproximação de outras pessoas, pegavam a pizza e iam comer na areia da praia, por sugestão da escritora, uma travessura celebrada com muitos risos.

Pilastra, com assinaturas de artistas, do restaurante La Fiorentina, no Leme. Foto: Daniel Ramalho.

Nas pesquisas mais aprofundadas e nas entrevistas com amigos e conhecidos, Teresa começou a descobrir uma mulher comum, que se fazia presente no dia a dia da cidade. “Claro que havia os momentos em que ela se concentrava no processo de criação, mas era mãe de dois filhos pequenos, tinha que circular pelo bairro”, lembra a autora, formada em Letras e Teatro, que vem trabalhando na ideia de um livro desde que iniciou os passeios.

A dedicação ao roteiro clariciano pelo Rio é tamanha que, no processo de saber mais sobre o Leme, Teresa acabou se mudando para lá há cinco anos. “Minha visão do bairro era outra, de quem ia apenas a passeio. Com a mudança ganhei uma série de referências do cotidiano, o material ficou muito mais afetivo”, conta ela. “Moradores deram depoimentos, e mesmo sem ter conhecido Clarice falaram do bairro daquela época. Acho que o Leme é a cara dela, realmente. É um cantinho isolado, parece fora do Rio. Acordamos com os pássaros cantando”.

Pedra do Leme, com o Posto 6, o morro Dois irmãos e a Pedra da Gávea ao fundo. Foto: Daniel Ramalho.

O Leme tem um protagonismo óbvio, mas a obra contempla ainda Tijuca, Centro, Catete, Botafogo e Cosme Velho, lugares em que ela morou, estudou, trabalhou, além do Jardim Botânico, que ela amava e visitava sempre que podia. Primeiro lugar da cidade a ser sinalizado como um dos Caminhos Claricianos (o segundo foi a estátua no Leme), o Jardim Botânico também está presente na literatura de Clarice, como no belo conto “O amor”, que integra Laços de Família (1960).

Aleia Barbosa Rodrigues, no Jardim Botânico. Foto: Daniel Ramalho.

“O Rio da Clarice é natureza pura”, afirma Teresa, que em seu livro lembra também as marcas deixadas na obra da autora por outro pedaço verde da cidade: a Floresta da Tijuca. Ao chegar ao Rio, vinda de Recife, a família Lispector instalou-se na Tijuca entre 1935 e 1940, depois de uma breve passagem por Flamengo e São Cristóvão. Clarice, já morando no Leme, sempre voltava para passear pela floresta. O belo cenário verde é palco para o casal Lóri e Ulisses de Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969).

Açude da Solidão, na Floresta da Tijuca. Foto: Daniel Ramalho.

A obra de Teresa segue costurando histórias de pessoas e lugares que fizeram e ainda fazem parte da memória da cidade, e também destaca curiosidades. Como os painéis do artista plástico Poty Lazzarotto pintados em hotel no Leme (na época Luxor Continental, hoje Novotel) onde Clarice se hospedava quando precisava se dedicar a um livro. “É uma coisa meio escondida, pouca gente conhece esses painéis”, diz a editora Maria Amélia Mello. “Contamos a história toda para poder situar o leitor. Na área do Porto do Rio, temos a foto do edifício A Noite, onde Clarice trabalhou. No Largo do Boticário, no Cosme Velho, tem a casa do artista plástico Augusto Rodrigues, onde ela ia todo domingo. Reunimos muita coisa legal, mapas, lembranças, memórias, história. A ideia é mesmo curtir a cidade, uma homenagem ao próprio Rio”.

*Mànya Millen é jornalista e integra a coordenadoria de internet do IMS.

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