Clarice em Paris

11 de Março de 2019 / 0 Comentários

A tradicional livraria parisiense Shakespeare and Company expôs com destaque em suas prateleiras a versão para o inglês do livro Todos os contos, de Clarice Lispector. A edição, cuja tradução, de Katrina Dodson, foi reconhecida pela instituição Pen América, dos EUA, com o prêmio de melhor tradução de 2016, ocupou o lugar destinado às sugestões de leitura da equipe de livreiros da loja, especializada em literatura de língua inglesa.

Livraria Shakespeare and Company, em Paris.

A nota que acompanhava a exibição do livro ressaltava que a reunião dos contos de Clarice em inglês eram ótima oportunidade para um público maior tomar conhecimento da importante escritora brasileira. Descreviam-na como dona de linguagem poética e ritmo hipnotizante, que “carregam o leitor de forma fantástica pelo universo sublime de personagens femininas, do inconsciente humano e de amores não correspondidos”.

A livraria possui uma longa história na capital francesa. A primeira loja foi aberta em 1919, pela americana Sylvia Beach, e se tornou um ponto de encontro para artistas como Ernest Hemingway, Gertrude Stein, Man Ray, Djuna Barnes, Ezra Pound e T. S. Eliot. Em 1922, a Shakespeare and Company editou a obra-prima da literatura moderna, Ulisses, de James Joyce, que havia então sido proibida no Reino Unido e nos Estados Unidos.

Cabe lembrar que é da epígrafe de outro título do escritor irlandês, Retrato do artista quando jovem (“Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do coração selvagem da vida”), que Clarice, sem saber, e aceitando sugestão do amigo Lúcio Cardoso, tomou emprestado o nome para seu primeiro livro.

A loja, que desde a abertura estava localizada no número 12 da rua Odeon, foi obrigada a fechar em junho de 1940 durante a ocupação alemã em Paris. Terminada a guerra, outro americano, George Whitman, abriu na rua de la Bûcherie, 37, a livraria Le mistral, tendo como modelo a de Sylvia. Com a morte da proprietária, em 1964, George, que havia recebido dela, seis anos antes, autorização para uso do nome original, trocou então seu letreiro para Shakespeare and Company.

Também sob a nova direção, o lugar foi frequentado, em diferentes épocas, por escritores como Allen Ginsberg, Henry Miller e Anaïs Nin, hospedou amigos (pois dispunha de cômodos para esse fim) e abrigou, entre 1978 e 1981, a sede do jornal literário Paris Voices. Segundo definição do dono, o estabelecimento poderia ser considerado “uma aventura socialista disfarçada de livraria”.

Em foto publicada no perfil do instagram da livraria, 8 de março passado, o rosto de Clarice aparecia ao lado dos da cantora Daisy Jones e da atriz Marianne Faithfullestampados nas capas dos livros erguidos pelas frequentadoras da loja durante a celebração do Dia Internacional da Mulher.

Capa do livro Complete stories, de Clarice Lispector, na festa de comemoração do Dia Internacional da Mulher promovida pela livraria parisiense Shakespeare and Company.

O destaque dado à escritora brasileira por uma livraria especializada em idioma inglês — e que foi, como vimos, casa editorial de um ilustre inventor da língua, como Joyce —, além de reafirmar a qualidade já avalizada da tradução de Katrina Dodson e os esforços de Benjamin Moser na promoção da autora nos países anglófonos, dá a dimensão do prestígio cada vez maior que Clarice tem alcançado fora do Brasil.

bruno-guimaraes

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